Talvez esta data não tenha nada de especial para assinalar – a não ser pensar que a partir daqui ninguém mais se lembrará de assinalar a sua construção. Quando fizer vinte anos já não será tempo de comemorar nada do passado e haverá, isso sim, outras coisas a reclamar e a ambicionar. O ser humano vive em eterna insatisfação e a política é um trabalho sem fim. Mas antes que esse tempo venha deixem-me dizer que essa obra foi feita no tempo em que a política de desenvolvimento era levada a sério e em que o investimento público não era visto como desperdício ou megalomania. Essa obra é uma notável obra de engenharia, cujo impacto é evidente na economia e na sociedade, mas é também, e talvez principalmente, uma obra que salvou vidas que antes se perdiam em estúpidos acidentes de viação. Ela resultou da vontade política de conjugar o desenvolvimento nacional com a igualdade de oportunidades entre todas as regiões. Não é uma obra isolada, mas um símbolo de uma política de modernização. Não mudou os transmontanos, mas mudou um pouco Trás-os-Montes.
Esse era o tempo em que se faziam coisas. O governo que fez o Túnel do Marão conseguiu tirar o País do deficit excessivo em que se encontrava e, no mesmo período, alcançar o maior crescimento económico nesses anos difíceis (2007). Esse governo deu um impulso modernizador às energias renováveis; esse governo criou o programa escola a tempo inteiro, as novas oportunidades e iniciou a requalificação das escolas secundárias; esse governo fez o maior aumento da percentagem de investimento público em ciência; esse governo fez da balança tecnológica um saldo positivo; esse governo fez a reforma da segurança social, mantendo-a pública, e forte, e sustentável; esse governo ganhou o referendo do aborto; esse governo criou o complemento solidário de idosos, fez as unidades de cuidados continuados, fez as unidades de saúde familiar – e ainda assinou o tratado de Lisboa e ganhou as eleições de 2009, já no meio da maior crise económica mundial. O Túnel do Marão não nasceu do nada, mas de uma linha política de ambição reformista.
E ainda antes de ficar sem fôlego, lembro que o governo que fez o túnel também inaugurou a reforma da desburocratização com o programa Simplex, as lojas do cidadão e a “empresa na hora”. Esse governo criou o programa do computador “Magalhães”, a cobertura nacional com fibra óptica e conduziu a aceleração da transição digital. Sim, foi esse governo que construiu a autoestrada Porto-Bragança, fez o IC5, fez a modernização rodoviária, fez o projeto do novo aeroporto e conduziu a primeira adjudicação do TGV (de que o governo seguinte desistiu). Foi esse governo que fez o Túnel do Marão. E se encontrarem na história recente um governo mais reformista por favor, digam. Eu não conheço. Pronto, agora, dito isto, estou melhor.





