Quinta-feira, 7 de Maio de 2026
Vila RealPassado do IP 4 não se compara com o presente

Passado do IP 4 não se compara com o presente

Foi, durante décadas, a principal ligação do interior ao litoral Norte, substituindo a Estrada Nacional 15, mas com um registo impressionante e macabro do número de acidentes, muitas vezes, com vítimas associadas. O tráfego do presente, após a abertura do Túnel do Marão, é muito menor e serve, na maioria dos casos, para chegar às localidades da serra

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O Itinerário Principal 4 (IP4), eixo rodoviário histórico que liga o litoral ao interior transmontano, continua a ser uma das vias mais observadas no plano da sinistralidade rodoviária, sobretudo pela sua importância estratégica e pelas condições variáveis de circulação ao longo dos anos. Dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), relativos ao período entre 2019 e 2025, permitem traçar um retrato relativamente estável em termos de acidentes com vítimas, embora com oscilações pontuais em 2022 e 2025.

Com muito menos tráfego do que no passado, entre 2019 e 2021, o IP4 registou 12, 9 e 9 acidentes com vítimas, respetivamente, sem mortes nestes anos e com um número constante de feridos leves. A leitura destes dados aponta para uma fase de relativa estabilidade, já depois das intervenções estruturais no eixo, que aconteceram ainda antes da abertura da nova ligação rodoviária, e, mais tarde, da crescente utilização da A4 e do Túnel do Marão.

Em 2022, porém, verifica-se uma alteração relevante. O número de acidentes sobe para 17, sendo registada uma vítima mortal, além de um aumento dos feridos leves para 20. Esse ano destaca-se também por uma maior concentração de ocorrências no distrito de Vila Real, com 10 acidentes, o que reforça a persistência de pontos críticos na via.

Em 2023, os valores descem, de forma significativa, para seis acidentes com vítimas, sem registo de mortes ocorridas nesta ligação, traduzindo um dos anos mais “baixos” da série. Já 2024 volta a introduzir uma quebra nesse padrão, com 12 acidentes com vítimas, duas mortais, além de dois feridos graves. É igualmente o ano em que surge uma tipologia mais diversificada de acidentes, incluindo um atropelamento, ainda que residual.

O ano de 2025, embora ainda com dados incompletos, regista 18 acidentes com vítimas, o valor mais elevado da série em análise, e 26 feridos leves. Ainda assim, não há vítimas mortais registadas, o que sugere uma redução da gravidade dos acidentes, apesar do aumento da frequência.

CLIMA

Por tipologia de acidente, a leitura global da ANSR confirma uma tendência já conhecida, uma vez que o despiste continua a ser a principal causa de sinistralidade. Em 2019, dos 12 acidentes, nove foram despistes. Em 2020, seis em nove. Em 2021, cinco em nove. Em 2022, há um salto expressivo para 14 despistes em 17 acidentes, refletindo condições diferentes nessa altura.

Já em 2024 e 2025, embora a amostra revele maior diversidade, o despiste continua dominante (6 em 12 em 2024 e 12 em 18 em 2025). As colisões surgem de forma secundária, mas constante, enquanto o atropelamento aparece como episódio isolado em 2024.

Ainda no inverno passado assistimos ao encerramento quase imediato desta ligação, devido à queda de neve no nó da Campeã, uma vez que as condições eram particularmente difíceis, mas em parte, porque a autoestrada apresenta uma maior segurança quando comparada com o IP4.

No terreno, a perceção dos utilizadores confirma esta evolução positiva dos dados. João Brás, taxista com décadas de experiência na região, sublinha que a transformação mais visível não está apenas na sinistralidade, mas na própria dinâmica da circulação.
“Com o Túnel do Marão ficou tudo mais rápido e mais seguro. No IP4, no inverno, ficávamos muitas vezes parados. Hoje só lá vou quando não há alternativa”, resume o taxista à VTM. Também João Coelho, utilizador com frequência da via, reforça a ideia de maior fluidez e menor exposição ao risco. “Antes, do Marco de Canaveses, de onde sou, uma viagem de ida e volta a Mirandela demorava quatro horas. Agora é mais rápido e com menos stress. E assistimos a menos acidentes”, explicou.

A evolução do IP4 não pode, contudo, ser dissociada da construção da A4 e, sobretudo, do Túnel do Marão, inaugurado há uma década. A infraestrutura veio redistribuir o tráfego de longo curso, reduzindo a pressão sobre o IP4 e alterando profundamente os padrões de mobilidade.

José Cabral, habitante em Torgueda, sintetiza essa mudança. “Desde que há o túnel, nunca mais usei o IP4. Compensa em tudo, no combustível, tempo e na segurança”, destaca este condutor.

Passado do IP4 não se compara com o presente PAM (6)
©PAM

MENOS VÍTIMAS

A leitura global dos dados da ANSR sugere, assim, um IP4 com menor centralidade no tráfego entre regiões, mas ainda relevante em circulação local e complementar. A redução de sinistralidade grave em alguns anos convive com picos pontuais, sobretudo associados a despistes, mantendo a via como objeto de vigilância permanente.

Este cenário contrasta com o passado recente da via, marcado por números significativamente mais elevados. De acordo com dados históricos da ANSR, entre 1996 e 2015 registaram-se 1.273 acidentes com vítimas, no troço entre Amarante e Vila Real, dos quais resultaram 136 mortos, 200 feridos graves e mais de 1.800 feridos ligeiros. O ano de 2004 ficou mesmo registado como o mais trágico, com 33 vítimas mortais, números que estiveram na base da mobilização cívica e política que exigia uma alternativa mais segura para a travessia do Marão.

Foi nesse contexto que surgiu a nova via, com o túnel a assumir-se como uma resposta estrutural ao problema da sinistralidade. A nova infraestrutura, além de reduzir o tempo de viagem, foi projetada para diminuir em cerca de 26% a taxa de acidentes graves, garantindo simultaneamente melhores condições de circulação em períodos de neve e gelo, que frequentemente condicionavam o IP4, sobretudo no Alto de Espinho.

Uma década depois da sua abertura, os dados mais recentes sugerem que essa aposta teve impacto, contribuindo para uma redução significativa da gravidade dos acidentes, ainda que o IP4 continue a registar ocorrências e a exigir vigilância contínua.


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