Quarta-feira, 24 de Junho de 2026
Vila RealFicou mais fácil chegar ao litoral

Ficou mais fácil chegar ao litoral

A abertura do Túnel do Marão alterou profundamente os padrões de mobilidade entre o interior transmontano e o litoral norte do país. Dez anos depois da sua entrada em funcionamento, a infraestrutura é unanimemente referida como um dos principais fatores de mudança nas chamadas “viagens sociais”.

As deslocações regulares por motivos familiares ou de serviços, entre o interior e o eixo Porto-Amarante, tornaram-se mais rápidas e cómodas, como tem vindo a ser apontadas pelos utilizadores.

Para João Brás, taxista com vasta experiência na região, a diferença é clara, uma vez que “antes havia muito mais receio” de atravessar a ligação com o litoral, porque “no inverno, ficávamos horas parados no IP4. Hoje é tudo mais rápido. Para o aeroporto ou para o Porto, só vou pelo túnel”.

O profissional explica que ainda há muito trabalho para o aeroporto, principalmente por ser uma região com muitos emigrantes que precisam do seu transporte para lá chegar.

A redução do tempo de viagem foi acompanhada por uma alteração do perfil das deslocações. Se antes o IP4 funcionava como eixo principal de ligação, hoje a A4 com o Túnel do Marão absorve a esmagadora maioria do tráfego de média e longa distância. Essa mudança teve impacto direto na regularidade das viagens sociais, tornando-as mais frequentes e menos condicionadas por fatores meteorológicos.

Mais regular

A redução do isolamento relativo do interior também contribuiu para reforçar ligações familiares ao litoral, sobretudo ao Porto. Muitos utilizadores referem que passaram a deslocar-se com maior regularidade, algo que antes era condicionado pela incerteza do estado da estrada.

José Cabral resume essa transformação de forma pragmática. “Mesmo pagando portagens, compensa. O combustível, o tempo e a segurança fazem toda a diferença”, quando comparado com o passado, conta o vila-realense.

No plano económico, o impacto também é visível. A maior facilidade de circulação contribuiu para o aumento de serviços regulares de transporte, nomeadamente táxis, transporte de mercadorias ligeiras e deslocações para o aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Para Fernanda Fonseca, as idas aos maiores centros urbanos, quer seja para consultas nos centros hospitalares de referência do Norte do país, quer seja por uma questão de visitas sociais ou compras, são mais cómodas. “Agora, para chegar ao Porto o que demora mais é o trânsito lá”, assume a utilizadora. “Podemos ir mais vezes para visitar, apesar do custo das portagens na autoestrada e do aumento do preço dos combustíveis, porque demoramos menos de uma hora. Até para ir a consultas no hospital é melhor”.

Ainda assim, subsistem assimetrias. As viagens sociais continuam dependentes de fatores como custo de portagens e combustíveis, e o IP4 mantém-se como alternativa em situações de menor custo ou proximidade local. Contudo, o padrão dominante é hoje claramente centrado na autoestrada.

“Acredito que se o gasóleo estivesse mais barato, as pessoas iam mais vezes para o Porto ou até Braga, por exemplo”, destaca Armando Freitas, quando questionado sobre o impacto da abertura do Túnel do Marão, acrescentando que “esta foi uma obra que nos ajudou muito, que era prometida e nunca tinha avançado”.

A transformação provocada pelo Túnel do Marão não eliminou a mobilidade tradicional, mas reorganizou-a, tornando-a mais previsível, mais rápida e, sobretudo, mais segura.


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