Segunda-feira, 25 de Maio de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

A democracia não se esgota no voto

Em Democracia, o voto é essencial, mas não se esgota nesse ato cívico. A conquista do voto universal demorou a alcançar. Pode, mesmo, dizer-se com precisão, que foi necessário muito esforço e combatividade.

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Em Atenas, já lá vão 2500 anos, apesar de nem todos terem direito a participar, dada a realidade sociológica de então, os cidadãos podiam fazê-lo em pleno na Assembleia Popular – a Eclésia – intervindo, votando, elegendo e sendo eleitos, decidindo sobre a guerra e a paz.

O poder deixou de ser exercido pela aristocracia e passou a sê-lo pelos demos/o povo.
Progressivamente, o conceito foi evoluindo e passou a integrar outros direitos. Passou, assim, a falar-se também de democracia económica, social e cultural. Recordo, quando, na distante campanha para as eleições constituintes, em 1975, o diretor do externato em que era professor me convidou para o acompanhar em sessões de esclarecimento pelas aldeias do vale do Côa e sugeriu para falar de democracia.

Para além do apelo ao voto, a consciencialização da igualdade de direitos nos vários domínios da vida também estava presente. Assim, o acesso à saúde, a salários condignos, fosse qual fosse o trabalho de cada um, o direito a frequentar a escola, nos seus diversos níveis, assim como às várias expressões de cultura, desde logo, o reconhecimento da cultura de cada comunidade, faziam parte das intervenções. Fazia-se a pedagogia da democracia. Por isso, saber exigir que os eleitos nos representem, de facto, ser capaz de defender o que têm mais dificuldade em o fazer, respeitar o outro, enquanto pessoa com iguais direitos e deveres, independentemente da sua raça, género, ou religião, dar a mão a quem se vê confrontado com tantas carências e dificuldades, como nas atuais intempéries, é assumir a cidadania e contribuir para que a democracia seja, de verdade, o poder do povo e para o povo.

Passado o momento eleitoral das presidenciais, é oportuna esta reflexão. Por cá, mas também no estrangeiro, a opção maioritária dos portugueses foi entendida como defesa da democracia no sentido que acima se aborda. Atente-se: no “El Mundo”, “Vitória ampla do socialista Seguro frente ao ultradireitista Ventura”; o “Le Monde” recorda que o recém-eleito chefe de Estado assegurou “o apoio de numerosas personalidades políticas da extrema-esquerda, do centro e mesmo da direita”; o “The Guardian” fez manchete informando que “o socialista moderado António José Seguro obteve uma vitória expressiva na segunda volta das eleições presidenciais portuguesas, no domingo, derrotando o seu adversário de extrema-direita”.

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