O Partido Democrata respira, hoje, com mais alento, numa altura onde o sufoco político seria o seu estado normal, renova uma narrativa política num momento onde o vazio seria o expectável, e transforma o ambiente político num cenário de esperança que é difundido e transmitido pelo mundo fora.
A vitória de Zohran Mamdani, em Nova York, Abigail Spanberger, na Virgínia, e Mikie Sherrill, em Nova Jérsia (os exemplos mais paradigmáticos das vitórias dos democratas) tiveram múltiplas leituras, análises contraditórias nas causas e nas suas consequências, mas foram responsáveis por recentrar a discussão política para o que interessa às pessoas. Affordability, uma expressão que traduz a pressão sobre os agregados familiares, a proporção da renda gasta em habitação, variação das faturas de energia e os elevados custos da saúde, fazem parte de um conjunto de problemas para os quais os americanos exigem uma resposta. A autenticidade, astúcia e o realismo com que estes protagonistas políticos foram respondendo, aliados com medidas operacionais (habitação a rendas controladas, tarifas sociais, ampliação de creches, incentivos à eficiência energética) sob forma de uma linha discursiva simbólico-comunicacional proporcionaram às pessoas ver, sentir e avaliar os efeitos concretos dessas políticas nas suas vidas.
O abandono de polarizações oligofrénicas entre políticas de reconhecimento e políticas de distribuição, bem como a afirmação de uma conceção integrativa da social democracia, apesar de variações distintas, fizeram da autenticidade a sua força. A política do affordability reencena o contrato social numa chave pragmática, a promessa é dupla: redistribuir recursos e instituir mecanismos de responsabilização. A ética política que daí decorre combina justiça, cuidado e prestação de contas: justiça porque reduz desigualdades, cuidado porque reconhece vulnerabilidades e prestação de contas porque transforma promessas em indicadores verificáveis.
A elasticidade deve ser admitida enquanto solução para a paralisia do Partido Democrata, a conversão da diversidade em convergência operativa evitará que a pluralidade se transforme em fragmentação política.
Por fim, enfrentar o populismo requer deslocar o campo narrativo, a alternativa não passa só por reprovar a simplificação retórica. Mamdani e os movimentos que ele simboliza mostram que a esperança política se renova quando a representação e os resultados se cruzam.
Deixem-se inspirar… mal não faz!




