O tempo assume-se como uma peça fundamental na reflexão, na reconstrução, no mapeamento das decisões, no desenho de um caminho que não necessita de ser novo, pode apenas ser aperfeiçoado.
Passar para a outra margem não é necessariamente a busca da solidão ou de um isolamento forçado, “pode sempre significar caminhar com outro passo pelos caminhos que já fazemos todos os dias”, como tão bem refere José Tolentino Mendonça. A liberdade é vivida com mais intensidade, sem condicionalismos ou dependências, expõe de forma clara e natural um novo olhar que tem um espaço próprio de beleza e que nos é comum a todos, mas que alguns tendem a querer sacrificar.
A oportunidade corajosa que se daria ao “novo olhar” traduziria a esperança, a expetativa de acabar o inacabado, possibilitaria respeitar o legado com a astúcia de encarar o futuro, assumir a herança verdadeira, aquela sem ajustes propositados (que tendem a manipular os mais distraídos), elevaria o sinal de força capaz de combater os truques antigos em prol de uma união genuína.
Em política, as mudanças levam tempo, paciência, coragem e um novo olhar, são poucas vezes vocalizadas, encaramo-las internamente, mais vezes com um silêncio ensurdecedor, de quem espera por umas migalhas que relembram, de uma forma subtil, que é preciso ficar tudo na mesma, pois só mesmo o precipício nos acordará.
A outra margem não é a rutura nem o conformismo, transforma-se na idealização consciente das lutas e das batalhas que temos pela frente, quiçá seja o realismo puro e duro a indicar o mesmo percurso, pese embora vivido de forma diferente.




