E é facilmente verificável como Deus paulatinamente tem desaparecido do horizonte da vivência de muitas pessoas, que vivem como se Deus não exista, e sem qualquer adesão à vida, aos valores e normas de uma confissão religiosa. Deus deixou de estar presente na vida e já não conta para nada. A secularização prossegue a sua cavalgada e nada parece abalar a sua impetuosidade.
A vida e o pensamento contemporâneo parecem conviver bem com o afastamento da fé e dos valores espirituais. Até no discurso antropológico e humanista atual, a reflexão e a sabedoria religiosas estão quase, praticamente, ausentes, e já não exercem a influência de outros tempos.
Até agora falei do eclipse de Deus, mas não levou necessariamente ao eclipse da religião. Seria óbvio concluir que uma coisa leva à outra, como é razoável pensar, Deus é o fundamento da religião, mas a religião, com o seu culto organizado, com as suas regras e a sua disciplina, com as suas tradições e costumes, persiste nos ambientes sociais e na cultura.
Se muitas pessoas já não têm uma relação viva e profunda com Deus e até o consideram prescindível, não deixam, no entanto, de continuar a cumprir toda uma herança religiosa que herdaram, apesar de, muitas vezes, o fazerem sem o seu sentido mais genuíno e a vivência espiritual que verdadeiramente a deveria acompanhar. Ainda se pede o batismo dos filhos, o casamento na Igreja, ainda se cumpre a festa do padroeiro e a bênção de um clérigo ainda fica sempre bem.
Mas agora há quem profetize que até mesmo a religião tem os dias contados e que se vai tornar quinquilharia do passado, as igrejas se tornarão monumentos, o que me parece exagerado. Já vários personagens históricos e movimentos intelectuais grávidos de arrogância o vaticinaram há muito tempo, todos passaram, mas a religião ainda cá anda. É verdade que há poucas vocações sacerdotais, os seminários estão vazios, os conventos também estão a fechar, a prática dominical é baixa.
Os sinais geram alguma preocupação, mas duvido que a religião caminhe para a irrelevância. Há dois sinais positivos que o justificam: há um novo despertar e uma inquietação espiritual na sociedade, uma busca mais interior como reação ao ruído, ao materialismo e à vertiginosa saturação digital e mediática, que tem arrastado a vida para o vazio e o sem sentido da vida; estão a surgir colaboradores e vocações laicais na vida da Igreja.



