Ricardo Almeida
Ricardo Almeida
Professor e Empreendedor Social

A “Cena” Oculta da Política

Há tempos em que a política se converte em representação.

Não no sentido trágico, onde o destino se cumpre com grandeza, mas na comédia antiga, onde o gesto substitui o pensamento e o ruído ocupa o lugar da razão. Aristófanes, há vinte e cinco séculos, já o intuía, quando o discurso se torna estridente, o poder deixa de ser serviço e passa a ser espetáculo. O político deixa de ser mediador da comunidade e transforma-se em ator de si próprio.

Em Cavaleiros, o poeta não denuncia um homem, mas uma forma de existir. O demagogo é aquele que fala alto para esconder o vazio que promete para disfarçar a ausência de projeto, que se alimenta da emoção imediata e da credulidade coletiva. O seu instrumento é o artifício, a sua força, o disfarce. “Paflagónio”, escreve Aristófanes, “tem uma sonoridade aparatosa, como de bolhas que rebentam.” O som é tudo o que lhe resta, e o som, quando não contém sentido, é apenas espuma.

Hoje, o mesmo estrépito mudou de forma. Já não se ouve nas praças, mas nos ecrãs. O grito transformou-se em vídeo, o discurso em fragmento, a reflexão em imagem. As redes sociais tornaram-se o novo palco da demagogia, um teatro sem silêncio, onde cada gesto é estudado para gerar impacto e cada frase é moldada para caber numa “story”. O político contemporâneo aprendeu a falar por segundos, não por ideias, nem para convencer. O resultado é uma política que se exibe, mas não se explica, que se mostra, mas não se compromete. O vídeo substitui o argumento, o “post” substitui o pensamento, e o cidadão, saturado de estímulos, confunde movimento com ação.

O nosso distrito não escapa a esta lógica. Também aqui, a defesa do território se faz em pequenos vídeos, cuidadosamente editados, onde a paisagem é cenário e o discurso é ruído.

-PUB-

Hannah Arendt lembrava que o espaço público nasce do encontro entre ação e palavra. Quando a política se converte em espetáculo, o espaço comum dissolve-se na visibilidade. A regionalização, por exemplo, tema que exigiria reflexão e coragem institucional, é frequentemente reduzida a palavra de ordem, a promessa instantânea, a símbolo de virtude. Tal como os oráculos de Aristófanes, que prometiam “sopa de lentilhas e cavalas fresquinhas”, também aqui se promete tudo sem esforço. A palavra “regionalização” tornou-se um amuleto retórico, brilha, mas não ilumina. Mas há, no discurso político sobre o interior, uma outra camada que merece ser interrogada, a tendência para transformar a permanência no poder numa narrativa de inevitabilidade. O interior não precisa de discursos que se absolvem a si próprios. A ambiguidade de exigir mais poder esbarra numa dependência que sempre foi normalizada durante pelo menos uma década de governo.

Mas o povo, como Demos na comédia, não é ingénuo, apenas é paciente. Um dia, desperta. E quando desperta, reconhece o vazio por detrás da encenação.

Aristófanes termina a sua peça com uma lição que atravessa os séculos: o ruído é efémero, a verdade é duradoura. Pois que seja essa a nossa esperança!

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas