– Vou ver se exalo o seu perfume sem que os espinhos se espetem nas minhas mãos! – respondeu a neta, mostrando um sorriso de felicidade. Enquanto as duas conversavam entre palavras e sorrisos, passa Joana, rapariga dos seus 17 anos, com um andar feliz, olhando para as duas, pergunta: – Mariana, vamos tocar música em minha casa? – Vamos pois, a minha avó fica feliz quando nos encontramos em tua casa e nos ouve tocar…
– E que tal Chopin? – Pergunta Joana entusiasmada. – Adoro, é a que costumo ouvir enquanto pinto porque me concentro e me inspiro melhor. Chopin… a sua música é tão romântica…
Mariana continuava a sua dissertação: “Quando toco Chopin sinto o meu coração mais perto das pessoas!…” A avó ao ouvir falar a neta fica enternecida e quase lhe apetece chorar.
Joana faz perguntas a Mariana a propósito das suas preferências musicais e quando a questiona se quando pinta tem que ouvir sempre música, as respostas são variadas… – No silêncio também há música e o meu espírito deixa-se embalar facilmente pelo vento, pela chuva, pela neve…até para um simples olhar no vazio…
A avó não se cansa de ouvir a neta, enquanto a saudade do tempo em que era nova a leva a um regresso ao passado. O tempo presente revela-se entre o amor que tem pela neta e uma iniludível desconfiança da modernidade das coisas e das suas gratuitas manifestações. Isolada durante quase todo o ano, a idosa mulher sente-se frágil e vulnerável e o que ela encontra são estilhaços de memórias que povoam o seu espírito redemoinhado de ideias. A estrada de Mateus era no verão lugar de tertúlias, histórias e conversas que pareciam não ter fim… em frente ao palácio pequenos núcleos de pessoas curtiam ali o matabicho da maledicência e do entulho de palavras direcionadas como sempre para pessoas ausentes…
– Posso fazer-vos companhia?
– pergunta um jovem músico às duas bonitas meninas, enquanto a idosa o olha com um sorriso convidativo. Mariana atacada por uma indisfarçável alegria esbraceja e diz: – Claro que sim uma vez que a minha avó não se importa e admira-te como pessoa e como músico.
A avó apenas desejava que a sua neta fosse feliz para compensar a perda dos pais num acidente trágico de automóvel. Estes tinham uma vida desafogada e conseguiram juntar um avultado pé-de-meia. Com tal pecúlio, a avó procurara dar uma educação esmerada à neta. Desde cedo, a música, a pintura e a poesia dominaram as preferências de Mariana, cujos sentimentos e atitudes eram o espelho da nobreza de um grande coração. Temperada por uma ternura e uma grande humanidade, era fácil a esta jovem conquistar amizades e admiração das pessoas de Mateus.
O sino da igreja batia as 5 da tarde num dia de domingo.
Os três jovens perante a complacência da velha mulher encaminham-se para casa de Joana, um grande casarão onde havia um piano Steinway sempre bem afinado. O jovem músico tocava clarinete, cujos sons eram bálsamo para os corações mais afogueados. As jovens penitenciavam-se a ouvi-lo…
Joana tocava piano e cantava lindamente. Mariana era o expoente de emotividade e sobriedade no piano e no violino. Desta vez o trio ia interpretar Schubert a pedido do jovem.
Não era a primeira vez que se reuniam para estes sedutores encontros. Os sons que irradiavam daquela sala despertavam os habitantes de Mateus fantasiando-os para o delírio dos sonhos. Junto dos artistas, a avó evocava em pensamentos as coisas boas do passado, submetida no amor pela neta e nos desafios que ainda tinha pela frente. Este cenário de tertúlia e arte era frequente em Mateus…
Ao longe ouvia-se o alvoroço idílico de balidos, relinchos, risos de crianças, de latidos e de chocalhos de cabras… Esta era a verdadeira sinfonia da vida…
Em Mateus, o amor pela música, ainda hoje é um constante poema enquadrado nas paisagens da vinha, dos montes e de um céu misterioso e abençoado…




