Segunda-feira, 20 de Abril de 2026
Nacional“Continuamos a gastar energia como se não houvesse amanhã”

“Continuamos a gastar energia como se não houvesse amanhã”

Nos dias de hoje, a climatização de ambientes tornou-se um fator crucial para o bem-estar e produtividade, tanto nas nossas casas como no nosso local de trabalho. E a capacidade de manter a temperatura interna em níveis agradáveis, independentemente do tempo que faz no exterior, é essencial para garantir conforto e eficiência.

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No entanto, a procura pelas melhores soluções de climatização enfrenta muitos desafios, num mundo onde cada vez mais se sentem as alterações climáticas, e onde a escassez de recursos energéticos torna fundamental encontrar soluções eficientes e sustentáveis.

A VTM foi tentar perceber quais são as melhores soluções para ter as casas mais confortáveis.

Para Amadeu Borges, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e especialista em energia, “não vale a pena estar a produzir energia se, a seguir, a gastarmos mal”.

Em Portugal, e um pouco por todo o mundo, “continua-se a gastar energia como se não houvesse amanhã, com tecnologias obsoletas, em que nos esquecemos que a energia é um bem que o damos como certo”, disse, adiantando que “se nós começarmos a usar tecnologias cada vez mais eficientes, obviamente que o consumo de energia a nível global vai diminuir e a procura por energia limpa será, obviamente, mais fácil, pelo que os preços baixam. De pouco interessa se nós estamos a produzir energia limpa ou renovável se a seguir a gastarmos com pouca eficiência”.

POBREZA ENERGÉTICA

No relatório da União Europeia (UE) sobre o estado da união da energia, Portugal registava, em 2023, a percentagem mais alta da UE em pobreza energética, com um valor de 20,8%, ao mesmo nível de Espanha. Segue-se a Bulgária (20,7%) e a Lituânia (20,0%).

Questionado sobre o motivo das casas portuguesas serem frias no inverno e quentes no verão, o professor explica que a forma de construirmos as casas “tem uma influência muito grande no seu conforto térmico”. E pelo que tem vindo a constatar, “tudo leva a crer que iremos continuar a afastar-nos daquilo que são as boas técnicas de construção, que são visíveis nos países nórdicos”, por exemplo.

Amadeu Borges refere que “temos de respeitar o equilíbrio entre as duas estações (inverno e verão), mas acabamos por não conseguir, isto porque construir casas em Vila Real conforme se constrói no Porto ou em Lisboa, é um erro”.

“Na região, a margem de exploração de energia eólica está esgotada”
Amadeu Borges –
Professor da UTAD e especialista
em energia

E o maior problema não é na construção futura, mas sim na que está feita. “Aquilo que se fez até hoje peca pelo facilitismo na construção, o que faz com que as habitações tenham uma classe energética efetivamente muito baixa a nível nacional”. No entanto, a partir de 2013, quando a regulamentação ficou um pouco mais apertada, a nova construção começou a ter melhor qualidade, mas vai demorar muitos anos até que a população portuguesa tenha tempo e dinheiro para remodelar ou recuperar todo o parque residencial”.

Segundo o especialista, o povo português “é muito individualista” e não tem por hábito a partilha. “Na maior parte dos países da Europa faz-se a partilha dos equipamentos de produção de água quente, por exemplo. E esses sistemas, ao serem partilhados, fazem com que o preço por unidade de calor seja bastante mais reduzido”. No entanto, estas soluções partilhadas “só fazem sentido para edifícios, bairros ou até mesmo ruas”. Ao nível da distribuição de calor, o preço por unidade sai muito mais baixo, quer no custo da aquisição, quer na manutenção, assim como o custo de produção dessa mesma água quente. Em Portugal, “isso não acontece e continuamos a ter nas nossas casas o nosso esquentador, que utilizamos durante 10 minutos ou 15 minutos por dia, em vez de ser usado por todos no edifício onde se vive”.

SOLUÇÕES

Ao nível da eficiência energética, o mercado oferece várias soluções interessantes, como as bombas de calor, recuperadores de calor, ar condicionado, pellets ou biomassa. “Com estas soluções, é óbvio que a eficiência energética vai melhorar. Ou seja, qualquer uma destas soluções vai promover a melhoria do conforto térmico e também a melhoria da classificação energética da habitação, assim como os painéis térmicos, fotovoltaicos”, frisa o professor, adiantando que as bombas de calor “têm vantagens de ter elevada eficiência, versatilidade e facilidade na instalação”. Ao nível da climatização “tem a vantagem de facilmente poder produzir calor ou frio”.

A nível de custos, as pessoas dizem que “é elevado”, mas se “usarmos os painéis solares fotovoltaicos, o consumo de eletricidade das bombas de calor será extremamente reduzido ou mesmo zero, se estivermos no verão. No inverno, com menos sol, há menos eletricidade produzida. Mesmo assim, será sempre compensador”.

FONTES DE ENERGIA

Ao nível da produção de energia sustentável, o professor da UTAD sublinha que Trás-os-Montes é um território estratégico para o país. “A região tem um papel fundamental na produção hídrica através das bacias do Douro. Na energia eólica, se não for a região que mais produz no país, é a segunda”.

Já a biomassa está mal aproveitada na região. “Não é potencialmente aproveitada. Há fábricas de pellets, mas não existe uma recolha organizada da biomassa florestal. E ao não existir essa recolha organizada, a biomassa vai acabar por arder nos incêndios. Aí está uma razão porque os incêndios continuam a existir”, lamenta Amadeu Borges, que não acredita que os combustíveis fósseis acabem em 2050. “Não acredito que o seu consumo esteja totalmente erradicado. Acredito que o petróleo venha a sofrer uma queda no consumo muito significativa, mas não acredito que o gás natural acompanhe essa diminuição tão acentuada”.


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