IgrejaDeus é duro de ouvido?

Deus é duro de ouvido?

Escrevo no Domingo da Sagrada Família, o último deste ano de 2007. Talvez por isso me tenha vindo à memória um episódio habitual nas famílias que se reúnem com frequência. Um pequenito, com pouco mais de dois anos, pede ao avô que lhe dê o urso de peluche. O avô faz–se de surdo e a […]

Escrevo no Domingo da Sagrada Família, o último deste ano de 2007. Talvez por isso me tenha vindo à memória um episódio habitual nas famílias que se reúnem com frequência. Um pequenito, com pouco mais de dois anos, pede ao avô que lhe dê o urso de peluche. O avô faz–se de surdo e a criança repete o pedido. O avô continua a simulação e o garoto quase grita. O avô responde que não é assim que se fala às pessoas mais velhas. Então, o petiz aproxima-se, numa atitude intermédia entre o respeitoso e o impaciente, e repete o pedido. O avô ainda não cede. Que lhe fale mais perto do ouvido. Logo que o tem ao seu alcance, toma-o nos braços, senta-o nos joelhos e inicia um movimento que imita o trote de um cavalinho, faz-lhe cócegas, beija-o, brinca com o ursinho… Enfim, goza a companhia do neto e fá-lo gozar a sua companhia de avô.

Esta cena fez-me recordar uma das meditações do retiro que o cardeal Van Thuan pregou ao Papa João Paulo II e foram depois compiladas em forma de livro. Essa meditação tinha por título “Os Defeitos de Deus”. Recordo que um deles era a Sua falta de memória, porque se esquecia completamente dos pecados já confessados. Outro era o facto de Deus não saber fazer contas, pois com cinco pães e dois peixes tinha alimentado cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças.

Assim, é pela mão do cardeal Van Thuan que me atrevo a acrescentar outro defeito à sua lista: Deus é duro de ouvido (creio que este não vem incluído). Não me refiro ao facto de Nosso Senhor não se queixar de algumas vozes que se atrevem a cantar nas igrejas a plenos pulmões e vão fora do tom e do ritmo e desafinadas. Estas têm o mérito de reduzir o tempo de purgatório de quem as ouve. Ao mencionar a surdez divina, refiro-me ao tempo que Deus demora em atender os nossos pedidos. Por vezes, quase se desespera: rezamos tanto, sacrificamo- -nos, damos esmolas e… nada. De repente, quando tudo parece perdido, vem a felicidade, a euforia. Afinal, aconteceu mais e melhor do que se sonhara. Tudo porque, graças a essa “Surdez”, nos íamos aproximando dele, repetíamos os pedidos, ganhávamos confiança. E essa proximidade, física e afectiva, leva à plenitude do amor, esquecendo, talvez, algum urso de peluche que, afinal, não era tão importante assim.

Um caso agudo da surdez de Deus ficou para a história. É o de uma mãe (há tantas!) que chorou e rezou muitos anos pela conversão do seu filho, cada vez mais afastado da Fé e de uma vida recta. Chegou a pedir a um bispo, de nome Ambrósio, que se lembrasse dele. Efectivamente, foi pela sua mão que Agostinho, pois é dele que falamos, se converteu. Santa Mónica apercebeu-se de que a sua missão no mundo estava cumprida com a conversão do filho e, de facto, morreu pouco depois. Mas as suas orações e lágrimas conseguiram muito mais: Agostinho veio a ser bispo, santo e doutor da Igreja. Além disso, estes dois grandes santos, unidos por laços de sangue e pela mesma Fé, seguiram caminhos muito diferentes. O filho distinguiu-se pela inteligência, a loquacidade, o estudo e o ensino, pela fortaleza na luta contra as heresias do tempo… A mãe, quase escondida após a morte do marido, rezava e chorava. Vida activa e vida contemplativa? Não são ambos caminhos de Esperança, como recentemente nos recordou o Santo Padre Bento XVI?

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