“Fizemos questão de levar autores às escolas, porque há uma diferença muito grande entre encontrar um livro numa estante e encontrar, frente a frente, a pessoa que o escreveu. Esse encontro torna a literatura mais próxima, mais humana”, afirmou hoje à agência Lusa Mara Minhava, vereadora da Cultura da Câmara de Vila Real.
O objetivo é, frisou, “aproximar quem escreve de quem lê”.
E, no âmbito do Entre Quem Lê, André Gago, ator, escritor, tradutor e autor de canções, esteve hoje na Escola Secundária de São Pedro. Foi conversar com os alunos, mas foi também ler poemas de vários autores.
Este é, segundo o autor, “um contexto muito desafiante, muito interessante e muito importante” porque “a leitura é também a oralidade”.
“A oralidade tem muito peso na história da literatura, como sabemos, e o facto de ela ser oralizada por quem está habituado a oralizá-la, quem faz a leitura de textos teatrais ou textos literários em voz alta, traz sempre uma componente diferente a cada texto”, afirmou à agência Lusa.
André Gago realçou a importância de trazer às escolas autores que não fazem parte do currículo escolar, embora também considere “interessante pegar um autor específico do currículo e dizê-lo de uma forma que, de repente, seja uma reinvenção do texto para quem o está a ouvir”.
“Muitas vezes pode constituir até uma surpresa inicial ouvir um texto que se conhecia apenas sob a forma escrita e de uma maneira mais analítica e, de repente, enchê-lo de vida e perceber essa diferença e esse valor da oralidade, acho que é muito importante”, frisou.
Ricardo, 13 anos e aluno do 8.º ano, classificou a iniciativa como “muito fixe”.
“Porque pude descobrir que a poesia não é uma coisa seca como aprendemos nas aulas”, apontou.
O jovem estudante disse que gosta de ler. “Acho que são precisos mais eventos destes porque hoje em dia pode haver muitos alunos da nossa idade que não sabem ler e assim conseguimos aumentar a leitura e não estar sempre nas tecnologias”, referiu.
Beatriz, 13 anos, gosta “mais ou menos de ler”, mas disse que gostou de ouvir André Gago e dos poemas, admitindo ter ficado curiosa e, por isso, tencionar ler mais.
A edição 2026 do Entre Quem Lê, que começou sexta-feira e se prolonga até sábado, reúne 30 autores em 53 atividades e reforça a componente internacional e o serviço educativo.
Do total de 20 atividades infantojuvenis, cinco delas vão ser realizadas diretamente nas escolas, e dois dos seis recitais previstos no programa também acontecem em contexto escolar, para que o evento saia dos seus espaços habituais e vá ao encontro das crianças e dos jovens onde eles estão.
Para a vereadora Mara Minhava, o encontro entre quem escreve e quem lê “pode ser determinante para despertar novos leitores”.
“Um autor que conversa com uma turma, que responde às perguntas dos alunos, que fala sobre o seu processo criativo ou que lê um excerto do seu livro pode deixar uma marca que vai muito para além daquele momento”, frisou.
Explicou que o Entre Quem Lê quer que os “livros não sejam apenas objetos, mas lugares de encontro entre leitores e escritores, entre gerações, entre diferentes formas de pensar e, neste caso, entre a literatura e a escola”.
A diretora da Escola Secundária de São Pedro, Rita Mendes, realçou a importância de iniciativas como Entre Quem Lê numa altura em que os resultados do relatório PISA revelam que a leitura precisa de ser uma intervenção prioritária.
Os dados de 2025 do estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económicos (OCDE) revelam uma queda na leitura entre alunos portugueses.
“Esta é uma das estratégias, entre muitas outras: aproximar os jovens leitores da literatura, destes novos escritores. A nossa escola tem como símbolo a ‘menina a ler’ e, por isso, faz todo o sentido, é uma escola que aposta desde o 7.º até ao 12.º anos nesta ideia de que a leitura faz toda a diferença, frisou a diretora.
A escola aderiu ao projeto “10 minutos a ler” e tem um clube de leitura.
“Julgo que todas essas atividades vão ajudar os estudantes a valorizarem a leitura como algo que é mesmo importante para a vida deles”, afirmou a diretora da escola onde estudam 1.070 alunos.
O encontro literário aposta, nesta edição, num reforço da sua “faceta ibérica” com a participação dos escritores espanhóis María Canosa e Jesús Ortega.
A nível nacional, o programa inclui autores de ficção, poesia, ensaio e banda desenhada, entre os quais Rui Zink, Rui Cardoso Martins, José Gardeazabal, Inês Bernardo, Rui Lage, Rui Reininho, Marcos Neves, Ricardo Alexandre, Jorge Pinto e Luís Paixão Martins.

