Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2021

Futebol dos “pobres” movimenta cerca de 300 atletas

Já não é pontapé para a frente e meia bola e força. Hoje, a realidade da Liga Amadora de Futebol é bem diferente e já ocupa um importante espaço no desporto do distrito de Vila Real. Tudo nasceu de um projeto da Associação do Centro Social e Recreativo e Cultural do Couto, na freguesia de Adoufe, em 2003, altura em esta coletividade começou a organizar esta prova competitiva. No futuro, o campeonato pode ser realizado em três zonas: Vila Real, Régua e Chaves.

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Ninguém ganha, mas todos, ou quase todos, pagam do seu bolso para jogarem futebol aos domingos. É assim a realidade da Liga Amadora do distrito, uma prova que vai sobrevivendo, e muito, à custa do esforço e empenho dos dirigentes e atletas. Apesar de em muitos jogos não haver a presença da GNR, o certo é que a maioria dos encontros é disputada sem sobressaltos e com correção por parte dos jogadores. Muitos consideram que é o futebol puro que sobrevive de uma forma mais barata perante a crise.

António Lapa foi o principal mentor deste projeto, sendo membro e treinador da Associação do Centro Social e Recreativa do Couto, coletividade que organiza as competições da Liga Amadora de Futebol, que surgiu em 2003 por vontade de um grupo de irmãos (Lapa), que organizaram um campeonato com seis equipas. “Na origem desta prova esteve os custos reduzidos que um campeonato dentro destes moldes comporta. Comparando com os custos por exemplo de uma inscrição na Associação de Futebol de Vila Real até aos encargos com árbitros, transportes e outras despesas inerentes, esta prova amadora é muito mais barata”, sublinhou o dirigente.

A Liga Amadora vem ocupando um espaço importante no desporto regional, a sua competição desenrola-se com clubes de cinco concelhos e com uma penetração já no norte do distrito, nomeadamente em Valpaços, com a participação do Terras de Montenegro. “Este ano, tivemos 10 equipas, agora nove, com clubes na sua maioria já traquejados na AF Vila Real e um até na 3ª Divisão Nacional”, frisou.

O modelo deste campeonato tem aspetos curiosos, nomeadamente a atribuição de castigos é condicionada por uma comissão de sete elementos do Centro do Couto, que faz cumprir os regulamentos, aprovados pelos clubes, “embora estes, às vezes, entrem em contradição ao questionar pontos que eles próprios deram o seu consenso”.

A crise económica que está a afetar Portugal poderá ter alguma repercussão no aumento de agremiações que possam aderir ao futebol amador, contudo esta época ainda não se fez sentir. “O futebol amador tem tido uma maior procura, embora esperasse mais adesão por parte de alguns clubes federados, devido à crise atual”.

A qualidade dos jogadores e das equipas está a crescer e neste momento há 280 atletas a jogar na Liga Amadora, com o concelho de Vila Real a dominar em termos de número de clubes. Apesar do amadorismo puro, a participação dos diversos clubes envolvem muito esforço e dedicação de dirigentes. “Ninguém ganha dinheiro com o futebol amador e é para muitos o prolongar da sua atividade futebolística. O Centro do Couto tem um apoio de mil euros da Câmara de Vila Real, mas há equipas que não têm. Os jogadores pagam os transportes e os equipamentos. A Liga não tem apoio da Câmara na organização da prova”.

 

Os clubes disponibilizam os árbitros

 

A arbitragem e a segurança nos jogos é uma das preocupações dos organizadores. “Não há a segurança da GNR porque seria mais um custo. Chegamos a criar um Conselho de Arbitragem, enquanto este esteve em atividade, as polémicas e os casos diminuíram, mas depois as suas funções acabaram por vontade de alguns clubes e as arbitragens agora são da responsabilidade das coletividades que jogam em casa”.

Para o futuro, a dinâmica do futebol amador terá de passar por novos processos em termos de sustentabilidade, a exemplo do que acontece nos distritos do Porto, Braga e em Aveiro. “Noto que poderá faltar uma associação de futebol amador extensiva a todo o distrito, que poderia passar pela criação de três zonas competitivas, nomeadamente em Chaves, Vila Real e Régua. E depois fazer uma fase final no Norte, com os campeões das diversas ligas amadoras em atividade, e talvez ligas espanholas. Esta ideia já se arrasta há alguns anos, mas um projeto deste tipo precisa de mais pessoas já que envolve mais jogos. Com esta iniciativa, o Centro do Couto não quis ganhar dinheiro, mas sim promover o futebol amador numa vertente de convívio e contribuir para que muitas terras, durante as tardes de domingo, não fiquem desertas”, concluiu.

Benagouro e Terras de Montenegro, duas realidades distintas

Mesmo no futebol amador, há um clube que sobressai ao nível de orçamento. O Grupo de Terras de Montenegro tem uma verba disponível de 20 mil euros, enquanto o Benagouro Sport Clube dispõe de 2,500 euros. Números diferentes, mas com sustentação, conforme nos explicou o treinador e diretor do clube, Gilberto Vicente, (formado em Desporto, antigo futebolista de vários clubes nacionais e irmão do cantor Jorge Palma). “Temos atletas de Chaves, Mirandela, pagamos os combustíveis, e apoiamos sempre os nossos jogadores. Quando há deslocações, temos de pagar almoços. O valor, que pode parecer elevado, explica-se também pelo facto de sermos o clube mais a norte da Liga Amadora e, por vezes, jogarmos no relvado sintético do Cachão, apesar do nosso campo pelado ser um belíssimo estádio”.

“O futebol amador terá sustentabilidade se mudar algumas coisas. Ao nível da organização tem de mudar muita coisa, nomeadamente a existência de um Conselho de Arbitragem e de Disciplina. Aliás, acho que o futebol amador tem pernas para andar aqui no distrito, pois há bons jogadores e boas equipas. Ao nível competitivo, há quatro ou cinco equipas no patamar da Divisão de Honra da AF de Vila Real. O nível dos jogadores tem evoluído e o dirigismo é igual ao da AFVR. Quem adere a estas equipas são jogadores que não têm lugar nos clubes ou não podem treinar durante a semana”, sublinhou.

Com menos euros, mas imbuído de uma afirmação sempre presente no desporto, o Benagouro, fundado em 1950, é um clube já com história no futebol amador distrital e movimenta cerca de 40 atletas. Sérgio Rodrigues, atual presidente, salientou que “a modalidade na aldeia é uma tradição antiga”. “Estamos mesmo dispostos a dar continuidade a este projeto e evitar que muitas aldeias parem no tempo. Durante a semana, todos trabalham, às vezes ainda fazemos treinos e ao domingo juntamo-nos todos”.

“As próprias pessoas das aldeias têm aderido bem e é uma resposta à crise, de forma a combater o stress, sendo uma alternativa credível ao futebol associativo, pois esse é muito caro e as pessoas e as coletividades cada vez menos têm posses para o manter”.

Quanto ao futuro, Sérgio Rodrigues entende que terá de haver árbitros qualificados. “Começamos com árbitros da casa, mas isto leva a que as equipas de fora nunca fiquem satisfeitas. Depois, foi criada uma comissão e as coisas começaram a correr melhor, mas há sempre clubes a contestar. Os clubes que tiverem disponibilidade financeira podem chamar árbitros qualificados, os que não tiverem, usam pessoas da casa”.

Para concluir, diga-se que a assistência médica é assente no voluntariado, já que alguns são bombeiros e enfermeiros. No naipe de atletas, encontram-se ainda doutores, advogados, pedreiros, militares, ou seja, uma grande variedade de profissões.

O público na Liga Amadora (ligadefutebolamadordevilareal.blogspot.com) não paga bilhete e a principal fonte de receita são alguns euros derivados do funcionamento das verbas dos bares. Neste momento, as equipas que competem são o S. Martinho de Anta (Sabrosa), Benagouro, Couto, Abaças, Pomarelhos, Parada de Cunhos, Vila Seca de Poiares (Régua), Fontes (S. Marta de Penaguião) e Terras de Montenegro (Valpaços).

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