Muitos casos de maus-tratos a idosos poderão estar a passar despercebidos nos centros de saúde no Norte do país. A conclusão é de um estudo da FMUP, que alerta para dificuldades persistentes na identificação e denúncia destas situações nos cuidados de saúde primários.
A investigação, publicada na revista científica BMC Public Health, baseou-se num inquérito a mais de 350 médicos de família de várias regiões, incluindo Alto Minho, Trás-os-Montes, Douro, Tâmega e Sousa e Área Metropolitana do Porto.
Apesar de 94% dos clínicos reconhecerem que têm responsabilidade na deteção de maus-tratos, cerca de dois terços admitiram não ter suspeitado de qualquer caso ao longo dos 12 meses anteriores ao estudo.
“Os dados não são muito animadores. Sabemos que estes casos existem, mas nem sempre são visíveis”
Para a investigadora Sofia Frazão, este dado não significa necessariamente ausência de violência, mas sim dificuldade na sua identificação. “Os dados não são muito animadores. Sabemos que estes casos existem, mas nem sempre são visíveis. Muitas vezes é preciso saber ler nas entrelinhas”, afirmou, em declarações à Agência Lusa.
Entre os médicos que disseram ter identificado situações suspeitas (32%), menos de metade avançou com a comunicação às autoridades. Em 16,9% dos casos, a decisão de não denunciar foi influenciada pelo pedido das próprias vítimas ou dos cuidadores.
“Há um dilema frequente. Por um lado, o dever de proteger o doente. Por outro, o respeito pela sua vontade e pela relação de confiança”, explicou a investigadora, sublinhando que este equilíbrio nem sempre é fácil de gerir.
FALTA DE FORMAÇÃO
O estudo revela também lacunas ao nível do conhecimento dos procedimentos, com apenas 36,5% dos médicos inquiridos a afirmarem saber como reportar casos de suspeita de maus-tratos.
A falta de formação específica é apontada como um dos fatores críticos. “Cada vez mais escolas de Medicina têm a Medicina Legal como disciplina opcional ou nem sequer a incluem. Isso faz com que muitos profissionais entrem na prática clínica sem preparação suficiente para lidar com estas situações”, alertou Sofia Frazão.
Além disso, o tempo limitado das consultas surge como outro obstáculo. “Os médicos de família têm listas de utentes muito extensas e pouco tempo por consulta. Isso dificulta a abordagem de questões mais sensíveis e complexas, como a violência”, realçou.
Mesmo ao nível clínico, nem sempre é fácil identificar sinais claros. Enquanto cerca de 55% dos médicos dizem sentir-se confiantes na deteção de abuso físico ou negligência, metade aponta a incerteza dos sintomas psicológicos como o principal desafio.
“Uma lesão pode ter várias explicações e levantar suspeitas de maus-tratos pode ser delicado, porque existe o receio de ofender o doente ou a família, ou até de agravar a situação”, confessa a investigadora.
IMPACTO
Os maus-tratos a idosos incluem violência física, psicológica, abuso financeiro, negligência e até abuso sexual. As consequências podem ser graves, tanto a curto como a longo prazo, aumentando o risco de lesões, intoxicações e doenças físicas e mentais. Para os autores do estudo, trata-se de um problema de saúde pública que exige uma resposta mais estruturada.
“Nós estamos disponíveis para colaborar na criação de cursos e iniciativas de formação nesta área. Acreditamos que é possível melhorar a capacidade de resposta dos profissionais”, concluiu Sofia Frazão.
65% DOS AGRESSORES SÃO FAMILIARES PRÓXIMOS
A propósito do estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, a VTM foi ouvir a opinião de quem lida com casos destes. Ana Temes é médica de família na Unidade de Saúde Famíliar Nuno Grande, em Vila Real, e, com as médicas internas Carolina Pereira e Beatriz Sousa, tem-se dedicado ao estudo da violência contra idosos.
“O número de casos de violência contra pessoas idosas tem vindo a aumentar em Portugal nos últimos anos. Apesar disso, os especialistas alertam que muitos episódios continuam por denunciar, o que significa que a realidade poderá ser ainda mais preocupante”, refere, salientando que, segundo os dados disponíveis, estima-se que “cerca de 65% dos agressores sejam filhos ou cônjuges das vítimas, tornando este problema particularmente delicado e difícil de identificar”.
A violência sobre os idosos pode assumir diferentes formas, “incluindo agressões físicas, violência psicológica e verbal, abuso sexual, negligência, abandono, violência económica e financeira, bem como violência doméstica”, indica Ana Temes, confessando que “os profissionais de saúde e as equipas de saúde familiar, compostas por médicos e enfermeiros de família, desempenham um papel fundamental na deteção precoce destas situações”.
Na sua opinião, “o acompanhamento regular dos utentes e as visitas domiciliárias permitem conhecer melhor o contexto familiar e social da pessoa idosa, avaliando aspetos como o apoio familiar disponível, as condições habitacionais, barreiras arquitetónicas e a qualidade de vida”.
Questionada sobre os sinais de alerta, a médica de família destaca “lesões físicas inexplicáveis, desnutrição, alterações bruscas de comportamento, como medo, tristeza, depressão ou isolamento, além de indícios de abuso financeiro”, salientando que “a negligência é também frequente, manifestando-se através da falta de medicação, roupas inadequadas ou situações de abandono”.
“Os profissionais devem ainda estar atentos a outros sinais como o incumprimento terapêutico, faltas a consultas médicas e sintomas persistentes de ansiedade e depressão”, acrescenta, vincando que “os idosos mais vulneráveis são, sobretudo, os que vivem sozinhos, os que estão institucionalizados, os que dependem de terceiros ou os que se encontram socialmente isolados”.
Nesse sentido, “a resposta a estes casos exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo psicólogos, nutricionistas, assistentes sociais, médicos e enfermeiros, permitindo uma referenciação e orientação adequadas para linhas de apoio ou consultas hospitalares especializadas, sempre que necessário”.
Ana Temes aproveita para destacar o trabalho feito, nos últimos anos, pela Equipa de Prevenção da Violência no Adulto (EPVA) do antigo ACES Marão-Douro Norte que “tem promovido ações de formação dirigidas aos profissionais dos cuidados de saúde primários, reforçando a capacidade de deteção e intervenção em situações de violência ao longo do ciclo de vida”.
De acordo com esta profissional, “em cada unidade de saúde existe também um interlocutor com experiência nesta área, disponível para apoiar os profissionais perante casos suspeitos”.
“As vítimas devem contactar a equipa de saúde e nunca consentir qualquer forma de violência”, apelam as médicas Ana Temes, Carolina Pereira e Beatriz Sousa.








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