No ano de 2021, houve situações assustadoras no domínio da violência doméstica, sendo de salientar que o número de homens mortos na sequência deste fenómeno foi superior ao das mulheres.
Esta situação pode ser explicada por haver casos de suicídio entre os agressores, depois de terem cometido os crimes no seu aglomerado familiar. Têm sido frequentes casos de assassinatos de homens sobre outros homens (e não só em casais homossexuais), registando-se também casos em que são as mulheres a cometer violência mortal em homens dos seus relacionamentos e, ainda, o facto de terem crescido os casos de infanticídio, especialmente de mulheres sobre filhos recém-nascidos de ambos os géneros.
“Violência contra as mulheres é ultraje a Deus” –
Papa Francisco, mensagem de Ano Novo
Violência no namoro
Muitos destes homicídios derivam de uma ligação pouco consistente entre namorados. Os ciúmes, segundo estudos desenvolvidos pela UMAR – União de Mulheres “Alternativa e Resposta”, são o principal fator desta prevalência.
Atentemos em alguns títulos da imprensa:
“Pedidos de ajuda de violência no namoro disparam” (JN – maio de 2019); “PSP recebeu média de seis queixas de violência no namoro por dia” (Observatório da Violência no Namoro – junho de 2019); “Há violência entre namorados com 13 anos” (Carla Sofia Luz, JN – fevereiro de 2017); “Jovens acham normal violência no namoro” (Zulay Costa, JN – fevereiro de 2021); “São os rapazes que mais desvalorizam a violência no namoro” (Hermana Cruz, JN – fevereiro de 2020); “Um terço dos universitários de Lisboa já sofreu abusos sexuais (Sofia Cristino, JN – dezembro de 2019); “Intervir nas escolas para evitar perpetuar abusos no namoro” (UMAR, JN – fevereiro de 2021).
44 homicídios em 2021
O número total de homicídios causados por violência doméstica foi, em 2021, de 44, resultando deles 26 mulheres mortas e 30 homens também mortalmente vitimados.
- 20 de janeiro. Nogueira da Maia. Sérgio (48 anos), ex-namorado de Maria do Carmo (50 anos), matou-a. Motivo: maus-tratos frequentes e ciúmes doentios;
- 22 de janeiro. Arrouquelas / Rio Maior. Sofia (42 anos) matou dois filhos (2 e 3 anos, um de cada sexo), depois de os ter raptado de casa da avó das crianças. A mãe sofria de doença psiquiátrica;
- 27 de janeiro. Reguengos de Monsaraz. Uma mulher (34 anos) matou um homem (82 anos) de quem era amante, com o objetivo de lhe roubar o dinheiro que este possuía. A mulher era alcoólica;
- 12 de fevereiro. Viana do Castelo. Cyril (43 anos, de nacionalidade francesa) foi julgado por ter matado a filha bebé (2 meses de vida) – portuguesa – atirando a criança contra uma parede após lhe ter dado um pontapé. A mãe da criança (Carla, 24 anos), de nacionalidade portuguesa, vivia com o agressor que não era pai biológico da bebé;
- 14 de fevereiro. Azambuja. Homem de 80 anos agrediu a mulher (76 anos) e suicidou-se. A mulher sobreviveu ao ataque do marido;
- 19 de fevereiro. Barreiro. Uma mulher de 82 anos asfixiou a filha doente (50 anos). A investigação policial explicou o caso como sendo de “desespero” da mãe por ter dificuldades em ajudá-la;
- 23 de fevereiro. Castro Daire. Uma mulher assassinou a irmã Maria Celeste (53 anos). Ajudada pelo marido e por um outro indivíduo, a mulher matou a vítima por motivos relacionados com uma ligação extraconjugal;
- 10 de março. Lousada. Nuno (31 anos) esfaqueou mortalmente o pai (64 anos). O agressor foi enviado para a ala psiquiátrica da prisão de Santa Cruz do Bispo, onde ainda se mantém;
“O estabelecimento de uma relação afetiva é a assunção de uma circunscrição de paz. Mais do que afirmar o amor, a relação tem de ser um acordo de paz”
Valter Hugo Mãe
in “Cidadania Impura” – fevereiro de 2020
- 13 de março. Porto. Ana (31 anos) matou Catarina (26). As duas mulheres constituíam um casal homossexual e o assassínio surgiu após Catarina ter pedido o divórcio;
- 14 de março. Oliveira de Frades. José Pedro, ex-emigrante (49 anos) tirou a vida a Laura (82 anos), sua mãe. Esquizofrénico, o agressor tinha sido despedido em França;
- 14 de março. Penacova. Um ex-emigrante na Suíça (Frederico, de 27 anos) matou o pai (54 anos). Sofrendo de esquizofrenia contínua, o agressor foi considerado inimputável pelo Tribunal de Coimbra em dezembro de 2021 e internado num estabelecimento de saúde psiquiátrica;
- 15 de abril. Leiria. O cidadão brasileiro Rodrigo (38 anos) matou a sogra portuguesa (Lucélia, 43 anos) em Goiorê / Brasil), tendo sido detido em Leiria, após ter fugido para Portugal. O agressor disse que a sogra raptara a filha, sua mulher, impedindo o relacionamento conjugal;
- 19 de abril. Almeirim. Homem de 63 anos com problemas psíquicos tentou matar a ex-namorada (56 anos). A seguir, suicidou-se;
- 20 de abril. Montemor-o-Velho. Um homem (34 anos), cunhado da vítima (Lígia, de 30 anos) matou-a, pondo-se em fuga. Uma discórdia sobre obras na casa ditou o desfecho;
- 14 de maio. Vila Real. Damásio (75 anos) matou a mulher Fernanda (73 anos) de quem estava divorciado. Após ter cometido o assassinato, o homem disparou sobre si próprio, vindo a morrer no hospital;
- 22 de maio. Murtosa. Ana (53 anos) matou o marido (Manuel, 57 anos). A mulher foi internada em Psiquiatria no Hospital de Aveiro;
- 24 de maio. Barcelona / Espanha. Lúcia (42 anos) foi assassinada pelo marido (50 anos, de nacionalidade espanhola) por ciúmes. O homem suicidou-se de seguida;
- 28 de maio. Valadares / Vila Nova de Gaia. Beatriz (78 anos) foi morta pelo marido (79 anos), após discussão fútil;
- 8 de junho. Castanheira de Pera. Paula (45 anos) foi morta pelo marido que depois do ato se pôs em fuga, sendo detido em Gondomar. Motivos fúteis. O agressor (Albino, 59 anos) vivia com a vítima (viúva) há cerca de meio ano antes da data do seu assassinato;
- 8 de junho. Cerdedo / Boticas. A disputa por uma propriedade fez com que um lavrador (55 anos) matasse um cunhado (Manuel, de 48 anos, ex-emigrante);
- 21 de junho. Aveiro. Filipe (44 anos) matou Carla (39 anos) e pôs termo à vida. Motivo: o homem não aceitou o divórcio;
- 22 de junho. Carcavelos. Um homem (41 anos) foi morto por razões passionais. Na sua casa, o agressor encontrou a vítima com a mulher (de quem se estava a divorciar) e movido por ciúmes abateu-o;
- 30 de junho. Gandarela / Celorico de Basto. Luciano (63 anos) foi morto pela mulher (61 anos). Motivo: ciúmes;
- 3 de julho. Almada. Um homem contratou outro homem para agredir a companheira daquele, o que aconteceu. Na saída da casa da vítima, juntaram-se pessoas, seguindo-se uma discussão e confrontos que causaram a morte do agressor (Carlos, 33 anos);
- 6 de julho. São Bartolomeu de Messines. Após uma discussão corriqueira, um homem (53 anos) matou a esposa (55 anos), queimando o corpo da companheira dentro de uma autocaravana em que viviam, à qual pegou fogo depois de ter cometido o crime;
- 18 de julho. Calheta / Ilha da Madeira. Uma mulher (40 anos) foi morta pelo irmão mais novo;
- 18 de julho. Torgueda / Vila Real. Casal alemão residente em Portugal (Torgueda) há mais de trinta anos, a mulher (Maria Feliz, nome adotado) apareceu morta e o marido (Mário Feliz, idem) com sinais vitais fracos de que viria a recuperar no hospital. Ter-se-á tratado de um “pacto de morte” decidido por ambos;
- 6 de agosto. Aveiro. Miguel (60 anos) foi morto pela esposa (Rosa, 50 anos), após forte discussão entre ambos;
- 12 de agosto. Grantham / Reino Unido. Daniela, de nacionalidade portuguesa, 23 anos de idade, foi assassinada pelo namorado (Júlio, 30 anos) com quem vivia, na Inglaterra;
- 24 de agosto. Arroios / Lisboa. Uma jovem holandesa (20 anos de idade) foi morta pelo namorado (21 anos) também de nacionalidade holandesa, num quarto que tinham alugado em período de férias. A mulher morreu no hospital e o companheiro foi detido. Motivo: discussão entre eles;
- 8 de setembro. Algés / Oeiras. Um jovem (23 anos) matou o pai (60 anos) em defesa da mãe quando esta estava a ser agredida pelo marido;
- 14 de setembro. Cacém / Sintra. Uma mulher (44 anos) assassinou o irmão do companheiro da mesma idade. Confrontos físicos estiveram na base do crime;
- 15 de setembro. São Miguel / Açores. Um homem (39 anos) matou a namorada (42 anos), após suspeitar de que ela era bruxa e que o andava a prejudicar;
- 15 de setembro. Cascais. Uma mulher (43 anos) morreu após agressão do namorado que fugiu, entregando-se três dias depois num posto policial;
- 15 de setembro. Serzedo / Vila Nova de Gaia. Um homem (52 anos) matou o sogro, depois de este ter cortado a luz na residência do genro;
- 20 de setembro. Braga. Duplo homicídio e suicídio do agressor. Fernando (55 anos) matou um cunhado (João, 58 anos) e uma cunhada (Olívia, 58 anos) por estes estarem a ajudar (esconder) a mulher e o filho do agressor após reiteradas agressões;
- 26 de setembro. Matosinhos. Um homem (Manuel, de 42 anos) foi assassinado pela companheira (Sandra, 45 anos) após mais uma discussão violenta, em cenário de alcoolismo;
- 5 de outubro. Martingança / Alcobaça. Uma jovem (Soraia, 18 anos) morreu no hospital de Coimbra após ter sido baleada. O assassino foi outro jovem (19 anos), namorado da vítima que traficava droga;
- 26 de outubro. Mangualde. Um homem (75 anos) atacou a esposa (74 anos) e depois de a ter atingido a tiro suicidou-se. A mulher recuperou no Hospital de Tondela – Viseu;
- 8 de novembro. Santa Margarida da Serra / Grândola. Clemens, um homem de nacionalidade alemã (44 anos), matou um filho (3 anos) e pegou fogo ao carro com a criança dentro, suicidando-se a tiro no mesmo instante. Designer famoso, o homem não aguentou a saída de casa da esposa que o deixou com o filho de ambos;
- 5 de dezembro. Cascais. Uma mulher de nacionalidade brasileira e residente em Portugal há alguns anos deu à luz e matou duas crianças gémeas recém-nascidas no apartamento em que vivia. Escondeu sempre a gravidez;
- 17 de dezembro. Maia. Um homem (59 anos), cuidador de sua mãe (96 anos) tentou matá-la por estrangulamento. Julgando-a morta, atirou-se do terraço do prédio em que vivia e morreu. A nonagenária sobreviveu ao ataque do filho;
- 18 de dezembro. Mafra. Uma mulher (82 anos) foi morta por um neto (22 anos) que fugiu, sendo detido em Lisboa, no Hospital de Santa Maria a que acorreu para ser tratado a ferimentos resultantes do ataque que fez. Ficou em internamento preventivo, por ter sido considerado que cometeu o crime devido a crise psicótica;
- 19 de dezembro. Funchal / Ilha da Madeira. Um homem (Gregório, de 48 anos) matou a esposa (46 anos) e um filho (10 anos) por não ter aguentado o fim da relação conjugal.

Depois de ter cometido o crime, deslocou-se trinta quilómetros de automóvel e suicidou-se, atirando-se para uma falésia.
Nota – Nos finais de dezembro de 2021, Maria Malveiro (23 anos) que cumpria 25 anos de prisão por ter matado um jovem por dinheiro, em Lagos, em 3 de abril de 2020, pôs fim à sua vida, numa cela da cadeia de Tires, acrescentando o seu nome aos das vítimas atrás citadas.
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Estes dados são uma recolha própria do autor e não de dados disponibilizados por qualquer entidade oficial ligada ao campo da violência doméstica.






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