Álvaro, o segundo mais novo de cinco irmãos, emigrou para a Alemanha na década de 60. O seu primeiro destino foi Haimhausen, onde trabalhou numa fábrica de vidro. Aprendeu o ofício e gostou tanto que trouxe para Portugal peças feitas por si. Mais tarde mudou-se para Münster, empregando-se na indústria têxtil. Também aí se integrou sem qualquer dificuldade.
Tudo esteve bem até que a 21 de fevereiro de 1968 foi atropelado com extrema gravidade. Acendeu-se aí o rastilho que o viria a trazer de volta ao seu país natal. Pelo menos, essa é a convicção da sua mulher, Helena, que lamenta não ter ficado mais tempo em terras germânicas.
Depois do acidente esteve seis dias em estado de coma e hospitalizado durante sete meses. Voltou a Portugal para recuperar e em novembro de 1969, regressou à Alemanha. Foi para Hamburgo, onde se ganhava mais dinheiro na altura.
Na Blohm+Voss foi apresentado ao “mestre Bübal”, que lhe perguntou o que fazia em Portugal. Álvaro disse ser sapateiro e a resposta valeu-lhe o emprego. De aprendiz, rapidamente passou a encarregado. Trabalhou na Blohm+Voss durante 12 anos.
Dos móveis aos sapatos
Convicto que “os alemães são pessoas muito frias e não amam os filhos como nós”, decidiu deixar a Alemanha. Álvaro tem uma filha e faz tudo por ela. É a sua menina, o seu tesouro.
Em setembro de 1980, quando regressou a Portugal, aceitou prontamente o convite de um primo para divulgar e comercializar os Móveis de Lordelo do Douro.
“Não é para me gabar, mas safei-me muito bem. Estava tão à vontade que parecia ter nascido para o negócio. Durante sete anos abracei com entusiasmo esse desafio. Silves, Beja, Arruda dos Vinhos, Maia, Vila Franca de Xira foram destinos frequentes”, recordou com um sorriso franco.
No entanto, a dada altura a empresa dos Móveis de Lordelo do Douro foi obrigada a fechar as portas, devido à expansão do mercado asiático, que gerou uma quebra significativa de rentabilidade e competitividade.
Determinado, Álvaro Saavedra não perdeu tempo e logo deu novo rumo à sua vida. A 9 de dezembro de 1987 estabeleceu-se em Carrazeda de Ansiães. Comprou o negócio com a “marca” Sapateiro Rápido e assim ficou conhecido. Atualmente é o único sapateiro de Carrazeda e arredores. Em tempos outros houve, mas a crise fechou-lhes as portas.
“Tenho clientes de todo o país. Capas, meias solas e concertos de malas são alguns dos trabalhos que mais me pedem. Olhem o que eu fiz a estas botas”, mostrou. “Uma senhora comprou-as mas não as conseguia usar porque tinha as pernas gordas. Quis que lhe cortasse o cano e eu fiz-lhe a vontade. Tinha umas botas, ficou com uns botins. Onde é que encontram quem faça este trabalho?”
Os segredos da sua arte passam por opções tão simples como a escolha cuidada das matérias-primas. Explicou que há solas sintéticas que não unem com a tradicional cola de contacto.
Há 25 anos neste ofício, Álvaro Saavedra põe tanto de sabedoria como de carinho no que faz. Tem um sorriso franco e acolhedor, defende com unhas e dentes o seu clube de eleição e não se conforma com o estado da política em Portugal.
A nossa conversa continuou e rumou para temas de crise e política, que tanto o animam como exaltam. Os clientes chegavam e partiam, mas nunca perdia o fio à meada. Amigo do seu amigo recebe qualquer pessoa em sua casa como se fosse família. Num piscar de olhos a mesa encheu- -se de salpicão, presunto, um bom vinho e pão. Tudo isto e um par de sapatos como novos, depois de reparados na oficina do mestre Saavedra!




