Era coralista, com uma voz brilhante, de bonito timbre e muita afinação. Cantou sempre com espírito solidário, porque nunca quis o exibicionismo gratuito e a sua presença inspirava os colegas para uma conduta ainda mais responsável.
Cantou sempre, porque a música era uma forma de estar apaixonada pela beleza do canto subjugado à alegria de amar e de viver.
Maria do Carmo era estimada por todos porque irrepreensível a sua conduta cívica e humana. Assim, aprendia-se sempre com ela. E porque apresentava sempre um sorriso doce e afável, sincero e nele mostrava aquela espiritualidade que reconfortava como sol de inverno que entra pelas janelas e aquece.
Foi sempre corajosa na doença… raramente se queixava para não afligir os familiares e os amigos e a permanência do seu sorriso era a chave da chama viva de apego à exaltação da vida. O que muitas vezes a doença fatal nos revela é a pureza e a nitidez do pensamento…
No dia 10 de maio telefonou-me e determinada disse-me que esperava voltar a cantar no coral da cidade. A sua voz manifestava-se lúcida e confiante, suave como a mais lídima canção de paz universal.
A “Maria” foi sempre aquele ser humano iluminado e docemente ungido de um sinal de maternidade para todos os tempos da esperança e do amor…
Conheci-a no CIFOP como aluna, no Orfeão da UTAD e ultimamente no Coral da Cidade de Vila Real. Em todos os lugares a “Maria” foi simplesmente uma pessoa de sorrisos envolventes que facilmente hipnotizavam e purificavam os pensamentos e os olhares…
Era um maravilhoso ser humano que na morte adormeceu e terá acordado na sublimidade de Deus. Cá na terra, para tantos de nós, a sua falta será profundamente sentida.
Quando um amigo parte, até parece que o vento é calmo e frio. E o vento sussurra apenas como sopro inapelável de partida sem regresso.
E um silêncio cai sobre a aldeia e o vale e os cantos dos lugares. Sente-se o desespero, a angústia triste dos amigos. Chora-se sobre o manto da coragem. Chora-se na fraqueza de não voltarmos a falar sem a voz que nos falta. Chora-se pela falta de palavras…
Mas um amigo não morrerá porque nunca é esquecido. Ainda mal escureceu, e já não vemos a razão do seu apagamento. O que a Professora Maria fez não foi fácil, porque ela não queria choros nem lamentos, mas sim sorrisos como ela pedia aos que a conheciam e ela sabia sorrir como ninguém. Sorrir foi sempre uma fonte de alegria!



