Sábado, 21 de Maio de 2022
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Para onde correm os rios da regionalização?

A expressão “follow the money” já há muito deixou de ser reserva do dramaturgo William Goldman e caiu no uso comum.

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Sigam o dinheiro e percebe-se a cadeia de valor associada. Em última análise, ‘nature shows off’ e quem ficar por cima no final da história foi quem fez as melhores jogadas.

Assim, quando muitos voltam a querer discutir a regionalização, muitos outros, que a têm discutido há décadas, interrogam-se do estado atual a que o debate (não) chegou e, sem espanto, percebem que ao longo deste processo uns ganharam muito enquanto outros, sabendo-o ou não, perdem e continuam a perder.

Vários colegas – alguns da Galiza – conhecedores da nossa História, perguntam como um Estado que nasceu pelos ideais de descentralização, em Dume com os concílios convocados pelo Bispo Martinho de Dume e assistidos pelos homens que mais tarde configurariam o condado portucalense, continua a ser um Estado centralista. O próprio Afonso Henriques deu voz e corpo às intenções descentralizadoras que os homens portucalenses vinham assumindo há muitos anos. Até que com os Séculos XVII e XVIII, repressões como as inquisições junto dos judeus transmontanos e beirões ou a Devassa Pombalina em meados de 1770 no Douro assumiram com assinatura sangrenta a vitória do centralismo-absolutista.

Aqui chegados, muitos perguntam – e não houve reação dos netos desses infanções do condado? Curiosamente, o que se passou foi digno de estudo ainda atual. O constitucionalismo do século XIX saltou – ainda não sei hoje se inocentemente se ardilmente – do monarca absolutista para o cacique local, para o líder municipal. Assim, fez-se uma regionalização como um Bacalhau à Brás – desfiado e com os tubérculos laminados. Perdeu-se a escala intermédia, o poder da região que, noutros espaços europeus foi vital para o capitalismo industrial e para a geração de grupos económicos fortes de empresários de dimensão regional. Por cá, o capitalismo bipolar levava às concentrações de riqueza e poder ostentadas em São Carlos ou aforradas nas arcas dos herdeiros dos morgados. Emigrou o povo para o Brasil e com muito dele a capacidade de criticar o municipalismo vendido como regionalismo nacional.

Portanto, quem tem ganho mais com o estado-das-coisas? “Follow the Money” e perceberão o porquê de se contentar com debates enviesados as rendas que outros recebem.

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