“Patri-monium”, um pedaço de nós

De acordo com a etimologia, património deriva da palavra latina “patrimonium”, patri + monium, ou seja, “recebido do pai”.

Esta refere-se a uma herança que nos é confiada, que ultrapassa a efemeridade humana, passando de geração em geração. É o cimento que une as gentes de uma comunidade, formando, assim, uma identidade sociocultural, graças a um passado comum.

Nós, vila-realenses, guardamos uma história rica e tradições únicas das quais devemos estar orgulhosos. Este orgulho demonstra-se através de ações concretas, de proteção deste legado que os nossos antepassados, com tanto esforço, nos deixaram. Temos o dever da preservação, não apenas por respeito aos que nos precederam, mas também por preocupação pelos que virão. Se prestarmos atenção, este património conta quem somos, sussurrando uma História e estórias. É uma vitrine do passado e um reflexo de memórias, mais ou menos longínquas. É um “pedaço” de nós que fica! Serve, muitas vezes, para quem não nos conhece e para quem nos visita, de postal de boas-vindas.

Introduzido o tema, que me é caro, (faço questão que os meus filhos e netos venham a saber quem somos) chegamos agora ao cerne da questão. Não podemos falar da nossa história local sem mencionar dois monumentos nacionais, duas pedras preciosas na coroa que é Vila Real. Localizados na Vila Velha, foram edificados com o alto patrocínio de El-Rei D. Dinis, aquando da origem de Vila Real. Falo da Igreja de São Dinis e da Capela de São Brás. Encontram-se em elevado estado de degradação, com danos permanentes e irreparáveis, devido a décadas de total abandono e desprezo. Com a força típica do povo transmontano, vão resistindo às promessas estéreis de restauros futuros que nunca chegam.

A Igreja de São Dinis foi a primeira Igreja Matriz de Vila Real, e, durante séculos, local privilegiado de culto para as nossas gentes. Com elementos artísticos únicos, serviu de inspiração para outros templos da região. A Capela de São Brás dá nome a uma das nossas mais conhecidas tradições locais, o dia em que os rapazes oferecem a gancha às raparigas, a Festa de São Brás. Contém murais ímpares e gravações, com desgaste visível, bem como túmulos medievais de nobres.

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Quanto ao enquadramento jurídico, e consultada a Lei de Bases do Património Cultural, basta uma breve leitura do texto legislativo para percebermos que o Estado se encontra em incumprimento flagrante das suas obrigações de proteção e salvaguarda do Património, estas que foram estipuladas pelo próprio incumpridor. Irónico e triste.

Termino, apelando a quem de direito, seja ao senhor Presidente da Câmara, aos senhores Deputados de Vila Real e à senhora Ministra da Cultura, que tomem as diligências necessárias, com caráter urgente, de forma a resolver este problema e salvar estes monumentos, antes que seja tarde de mais. Tomo a liberdade de sugerir que, a curtíssimo prazo, seja elaborado um relatório público completo que detalhe o estado atual dos elementos artísticos e a situação estrutural dos edifícios, depois de feita um peritagem aos locais.

Se não protegermos o que é nosso, quem o irá fazer?

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