Domingo, 23 de Junho de 2024
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Projeto dá “mais vida aos anos” dos idosos

Combater o isolamento e promover o envelhecimento ativo é o que pretende o projeto “Dar mais vida aos anos, envelhecendo”, desenvolvido pelo Município de Boticas desde 2015 e que já chega a 11 aldeias, abrangendo 300 idosos.

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Quem integra o projeto tem atividades quatro dias por semana. Além da mais tradicional atividade física, há sessões de psicomotricidade, animação, hidroginástica, informática e música.

Gosto de todas as atividades, aprendemos coisas novas, faz bem ao físico e à mente”
Conceição Alves

Em Sapiãos, um grupo de 20 pessoas junta-se no Centro Comunitário. Começam pela psicomotricidade, para estimular a atenção, potenciar a socialização, o raciocínio rápido e desenvolver a agilidade motora. A proposta da psicomotricista e gerontóloga, Elisa Ferreira, foi um jogo em que os participantes tinham de contornar um obstáculo e chegar a uma campainha. O primeiro a tocar respondia a uma pergunta de cultura geral.

Natural de Boticas, Elisa integra o projeto há quatro anos e destaca que com psicomotricidade “os idosos usufruem de estimulação que de outra forma podiam não ter, se estivessem sozinhos em casa”. Esta componente pretende intervir “na prevenção de doenças, exercitando a memória, raciocínio, cálculo, equilíbrio, estruturação temporal e espacial”, sublinha.

É uma das nove técnicas do projeto e faz avaliações físicas, cognitivas e emocionais, desenhando as atividades ajustadas “aos pontos fortes e fracos” do grupo. “Se conseguirmos aumentar a qualidade de vida e o bem-estar, durante mais tempo, é dar vida aos anos, envelhecendo”, sublinha.

Centro Comunitário de Granja

Escolher uma atividade preferida é difícil, por isso a maior parte faz de tudo um pouco, mesmo que seja aprender a tocar um instrumento aos 80 anos. Foi o caso de Cesaltina da Silva, agora com 94 anos. As mãos já não a deixam dedilhar o cavaquinho, que aprendeu a tocar, mas não falta à música e canta.

Há cerca de oito anos no projeto, recorda quando começou. “Sou viúva, e moro sozinha. Estava em casa aborrecida e comecei a vir, a gostar e tenho vindo sempre”, conta.

Na ginástica não faz todos os exercícios, “mas no início fazia tudo, e agora também ainda me dou”. A vitalidade da anciã a dançar e a exercitar-se mostra bem as vantagens do programa. Às vezes pensa: “o que vou lá fazer? Já estou aleijada das pernas. Mas chego cá e já não me dói nada, e vou toda satisfeita daqui”.

Desde que o projeto chegou a Sapiãos, Conceição Alves, agora com 70 anos, aderiu. “Gosto de todas as atividades, aprendemos coisas novas, faz bem ao físico e à mente”, afirma, contando, entusiasmada, que já aprendeu a “escrever no computador”, em que nunca tinha mexido, destacando o convívio. “Só este encontro ajuda muito o nosso modo de viver, tornou-se a vida diferente. Isto mantém-nos vivos”, garante.

“Se os nossos antigos cá viessem diziam que nós estávamos no céu”. E aproveita para deixar um desejo: “oxalá que isto não acabe”.

“Sinto-me bem a fazer tudo, estou sempre à espera de vir”, diz Graça Matos, de 69 anos, que aderiu há um ano. Apesar de aqui vir há pouco tempo, sente melhorias. “Estava mais presa dos joelhos, agora já não me doem tanto”, afirma. “Vou puxando em função daquilo que eles conseguem”, diz Isabel Magalhães, que orienta a atividade física, garantindo que energia “não lhes falta”. Começam pelo aquecimento, repetem os exercícios, dançam e soltam risos. “Tem de acelerar a parte cardiovascular senão não faz sentido, há brincadeiras pelo meio, e exercícios para trabalhar alguns músculos e o equilíbrio, que é muito importante nesta fase”, afirma.

Na Granja encontramos Arnaldo Monteiro, de 70 anos, cujo regresso de França coincidiu com o início do projeto. “A minha mulher é que me convenceu. Ela gosta disto e eu também vim. Agora gosto de tudo”. Aprendeu informática do zero e a tocar cavaquinho. Há dois anos passou para a concertina, por iniciativa própria. “Já aprendi alguma coisa, é um bocadinho mais difícil”.

O educador social, Pedro Miranda, direciona a sua atenção para “o combate ao isolamento
e ao distanciamento social”, acentuados durante a pandemia. Ao tirar as pessoas de casa, pretendem interromper a solidão e desenvolver competências. “Enquanto estão a fazer as atividades vamos falando com elas, que é o que muita gente precisa, ter alguém com quem desabafar”. 

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