Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2023
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Quando a solidariedade tem o poder de mudar “a sorte”

A história de Fernanda e dos seus três filhos ficou conhecida a 1 de fevereiro e não deixou ninguém indiferente. Após uma ida à televisão e uma partilha nas redes sociais, que alertava para um despejo iminente desta família, surgiu uma onda de solidariedade sem par que acabou por lhe mudar o rumo de vida.

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Fernanda Seara é fruto de uma relação abusiva. O pai, figura ausente no seu percurso, era alcoólico, agressivo e não assumiu a responsabilidade de educar e cuidar dos seus 12 filhos. Por conseguinte, Fernanda, a mais nova dos irmãos, cresceu numa instituição até aos 16 anos.

Entretanto, fruto de uma relação de longa data, nasce Marisa,a filha mais velha, que acabou por ter o mesmo destino da mãe: foi abandonada pelo pai. Anos mais tarde, Fernanda fica novamente grávida, de gémeos, fruto de uma outra relação. Porém, o desfecho foi idêntico e esta acabou arruinada, mais uma vez, pelo alcoolismo e, ainda, pela violência verbal exercida pelo pai de Mariana e Martim. Consequentemente, Fernanda passou a ser pai e mãe, sustentando os três filhos sozinha.

Desde janeiro deste ano, e fruto de problemas familiares associados a partilhas de bens, esta família arrisca-se a ficar sem a casa onde vive há já 10 anos. De acordo com Fernanda, a proprietária da vivenda ainda é a sua mãe, que faleceu há nove anos, pelo que esta não lhe pertence.

CASA ATUAL

“A minha mãe fez esta casa para mim e para os meus filhos. Na altura queria pô-la em meu nome e não conseguiu, porque a doença foi muito rápida e ela acabou por falecer. Fiquei aqui e, desde então, tenho tido vários problemas, não com todos os irmãos (herdeiros), mas com dois. Tenho problemas todos os dias”, explica Fernanda.

Paz, é tudo o que quero. Em maio, já devemos estar fora daqui”
Fernanda Seara

“Tenho recebido ameaças constantes de que vamos fazer as partilhas, de que vão picar a casa ao mais alto valor possível para eu não poder ficar aqui. Mesmo ficando e pagando com a minha parte, eu nunca teria paz”, pela proximidade com os irmãos.

“A minha irmã mais velha pôs as partilhas em tribunal. Continuamos à espera que o tribunal decida quando é que vamos receber, o que temos a receber, que acredito que não seja nada, uma vez que temos essas despesas para pagar. O grande problema aqui é a divisão das partilhas”.

A solução passa, por isso, por antecipar a saída da casa onde atualmente vive com os três filhos, evitando problemas e a possibilidade de ficar “sem-abrigo”. A situação ficou conhecida em todo o país e não deixou ninguém indiferente.

Após uma ida à televisão, impulsionada por uma mensagem enviada pelo filho Martim, que expôs o problema, e uma partilha nas redes sociais que alertava para um despejo iminente desta família, surgiu uma onda de solidariedade sem par que acabou por lhe mudar o rumo de vida.

“O Martim disse que o sonho dele era sair daqui, pela paz e estabilidade emocional de que necessitamos. No início, e quando surgiu a angariação de fundos, não estava previsto sairmos do concelho de Ribeira de Pena. Porém, a opção seria sempre sair daqui”, para um local onde não tivesse que se cruzar com os irmãos.

Inicialmente, “foi pedido um terreno à junta de freguesia, mas também já tinha ido à câmara municipal pedir ajuda. Tenho papéis com mais de dois anos, período durante o qual pedi casa, mas que, por questões políticas, foi um pouco apagado”.

“Havia um terreno disponível, em zona de construção”
Daniel Carvalho,
Presidente JF Salvador e Santo Aleixo
de Além Tâmega

O terreno cedido pela junta “não tinha qualquer vantagem, continua perto do problema e iria acontecer o contrário. A minha irmã mais velha passaria à minha porta sempre que quisesse. Além disto, o terreno não tinha condições”.

 

De acordo com Daniel Carvalho, presidente da Junta de Freguesia de Salvador e Santo Aleixo de Além Tâmega, “foi feito um requerimento à Mesa da Assembleia de Compartes da freguesia. Esta aceitou o pedido, reuniu e havia um terreno disponível, em zona de construção. A Fernanda foi chamada para ver o terreno. Se lhe agradasse, ser-lhe-ia atribuído por 25 anos, período renovável”.

Porém, “até à data, não sei de nada, ficou de dar uma resposta. Aliás, soube, há pouco, numa conversa com a Fernanda, que acabou por optar por um terreno em Vila Pouca de Aguiar”.

“MERCADO DOS SANTOS”

Marisa Barroca, amiga de Fernanda, foi uma peça fundamental no processo, desde o primeiro momento. Através da Associação de Solidariedade Social Mercado dos Santos, que surgiu “através de um grupo de amigos, lançámos uma campanha para tentar ajudar a Fernanda a sair dali, até porque ela nos tinha dito que havia a possibilidade de a junta de freguesia ceder um terreno através de uma Associação de Compartes”.

Contudo, “nunca foi nossa intenção que se mantivessem em Ribeira de Pena. A equipa de psicólogos que acompanha os miúdos desaconselhou-nos por completo. Decidi, então, contactar a Câmara Municipal de Vila Pouca, por ser perto. Pus a hipótese de virem para o Porto e eles recusaram sempre”.

De acordo com Marisa Barreira, “o município de Vila Pouca foi excecional neste processo todo. Foi de uma abertura total. Ainda que, legalmente, não possa atribuir ou ceder terrenos, fez todos os contactos necessários, com uma Associação de Compartes para que tal acontecesse e a Fernanda esteve sempre presente nas reuniões”. 

Além “de ter ajudado com o terreno, a câmara quer ajudar com a procura de emprego estável para a Fernanda, o que é fundamental e é uma das nossas maiores lutas. Quero acreditar que, em setembro, os miúdos já estarão a arrancar o ano letivo em Vila Pouca de Aguiar”, frisou.

A VTM contactou a Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar para obter declarações a propósito do seu papel em todo este processo, mas sem sucesso.

A FUTURA CASA

Decidida a mudar de concelho, Fernanda assegura que “em Vila Pouca fomos mais bem acolhidos. Mostraram-me três terrenos de excelência para escolher” e a decisão está tomada. “Vamos para Vila Pouca, até porque é o concelho mais próximo e, assim, não tenho de tirar os meninos da escola a esta altura do campeonato”.

“Nunca foi nossa intenção que se mantivessem em Ribeira de Pena”
Marina Barroca,
“Mercado dos Santos”

Um dia depois do início da campanha de angariação de fundos em prol da aquisição de uma casa pré-fabricada para esta família, “fomos contactados pelo município de Vila Pouca de Aguiar que mostrou intenções de ajudar e disse que tudo faria para que fôssemos para lá.

Tive uma primeira reunião com o presidente da câmara municipal que ficou de falar com os compartes e associações de baldios”.

No dia 10 de março, “fomos ver o terreno e está escolhido. É numa zona onde, em princípio, há trabalho e tudo ali à beira de casa”, o que pode retirar Fernanda da atual situação de desemprego.

A casa será uma realidade graças à solidariedade de todo um país. A campanha lançada na internet por Gustavo Carona, médico intensivista e anestesista do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, conseguiu angariar cerca de 80 mil euros.

O objetivo primordial era juntar dinheiro para adquirir uma moradia pré-fabricada, no valor de cerca de 43 mil euros. Fernanda não esperava que a sua história gerasse esta onda de solidariedade.

Onda de solidariedade permitiu angariar 80 mil euros ©MR

“As emoções foram de tal ordem que tive de procurar apoio psiquiátrico rapidamente. Não consegui digerir muito bem. Entre os dias 3 e 8 de fevereiro conseguimos quase 60 mil euros. Foi inacreditável”, frisou.

“Já vi a casa modelar em 3D, temos o terreno, faltam algumas assinaturas e depois, então, implementar a casa. Se tudo correr bem, a meio de maio, daqui a dois meses, estaremos fora daqui. Esta é a maior ansiedade, aguentar até lá”.

Neste momento, Fernanda apenas deseja “paz, é só isso. É o ir para a cama, mesmo que só tenha comido sopa, mas saber que ninguém me vai bater à porta, que não me vou cruzar nem ver aquela gente. Agora vejo outra luz”.

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