A quadra que estamos a viver é particularmente querida aos portugueses. A maioria de nós, independentemente das suas convicções religiosas e da sua fé cristã, celebra o Natal como uma festa de família, em que esta se reúne e festeja o encontro com os pratos típicos, segundo a região e a tradição. Há lugar à inevitável troca de presentes que deixou de se limitar aos familiares mais chegados como acontecia tradicionalmente, passando a incluir os amigos, os colegas de trabalho, os superiores e os subordinados, e até nalgumas situações ao agradecimento de alguns favores ou atenções com que nos distinguiram. O apelo ao consumismo desenfreado é permanente e intenso e assim se estabeleceu um círculo vicioso que todos criticam e prometem alterar ano após ano, sem contudo, o conseguirem. Evidentemente que este sentimento de partilha e de generosidade que invade muitas pessoas nesta quadra natalícia pode e deve ser canalizado para auxiliar aqueles que nada têm e que mais precisam da ajuda e da solidariedade genuína e desinteressada de todos nós. Não é moralmente aceitável, nem se enquadra no espírito cristão, aproveitar estas acções de solidariedade para a autopromoção ou para mais uma entediante reportagem nas chamadas revistas “cor de rosa”. Estas, habitualmente, anunciam “O Natal dos famosos” o que é uma inverdade chocante porque, de facto nem se trata de Natal, nem de famosos. O que acontece é que se aproveita para publicitar belas e ricas decorações de Natal, em mesas de consoada e em salas com os inevitáveis pinheiros que nada têm de nacional porque são quase todos artificiais ou nórdicos. Quanto aos designados “famosos” pergunta-se: O que fazem? De que vivem? Que tipo de contributo dão para o progresso do país? Porque são “famosos”? Respondendo a esta última pergunta, direi que são famosos justamente por nada fazerem, excepto encherem as páginas dessas revistas com futilidades. Esse não é o nosso Natal, não é o que nos interessa e muitos menos aos que precisam da nossa ajuda. Também é habitual nesta quadra do ano formularmos desejos para o Novo Ano e anos vindouros, e então apelamos à paz e ao amor entre as famílias, na comunidade em que vivemos e entre os povos. Estes deviam ser desígnios permanentes para todo o ano, para todos os dias e não somente no Natal. Mas já não é mau lembrarmo-nos desses valores nesta altura e fazermos algo para os pôr em prática. Quanto às questões que afligem o mundo, os nossos compatriotas e os nossos conterrâneos transmontanos, elas têm algo de comum. Precisamos de um mundo mais justo, mais tolerante e mais solidário. É necessário lutar permanentemente para minorar as desigualdades entre os povos, de forma que os ricos sejam menos ricos e os pobres sejam menos pobres. Não devemos aceitar passivamente as desgraças que atingem tantas regiões deste nosso planeta, nomeadamente a fome e as doenças. Mas também é preciso que os mais altos dirigentes mundiais se lembrem da herança que vão deixar aos seus filhos e netos: um mundo a caminho da destruição devido às asneiras, à ambição desmedida e ao egoísmo de alguns que julgam poder trocar um efémero bem estar pessoal por um mundo melhor para todos. As preocupações centram-se no que vem, constituindo desde há alguns anos motivo de reuniões e de discussões sobre os temas difíceis e complexos para a vida e para a qualidade de vida do nosso planeta: a conservação da natureza, a qualidade e a quantidade da água, a preservação das espécies, o aquecimento global, a poluição (marítima com derramamento de petróleo), a excessiva dependência do petróleo, as grandes tempestades e catástrofes naturais, a contínua corrida ao armamento, o terrorismo e os acidentes provocados pelo homem (nucleares, químicos, bacteriológicos, etc.), só para enumerar os mais graves.
A nível da nossa região, Trás-os- -Montes e Alto Douro, seria bom que o discurso do Governo de ajudar o interior do país a inverter a tendência para um cada vez maior atraso e desertificação se concretizasse na prática. Sabemos que não é fácil, mas com vontade e medidas eficazes conseguir-se-á: estimulando a agricultura e, nomeadamente, a promoção do vinho, principal riqueza desta região; contribuindo para o desenvolvimento do ensino e investigação universitários, com novos cursos, licenciaturas e mestrados atractivos e modernos, em detrimento das universidades dos grandes centros (por exemplo, ciências da saúde); favorecendo a instalação de indústrias e empresas nesta zona; instalando novas áreas de serviços públicos e administrativos, de acordo com a natureza e potencialidades da região; impulsionando o turismo, através de medidas protectoras para quem quiser investir nessa área; possibilitando a criação de espaços culturais que atraiam agentes e público. O conhecido provérbio chinês “O caminho faz-se caminhando” também aqui se aplica, se não nos ficarmos só pelas intenções. Espero que José Sócrates, transmontano de gema, filho ilustre de Vilar de Maçada (Alijó) e deste distrito de Vila Real, se lembre destas terras e destas gentes. A futura autoestrada do nordeste é um bom princípio. Esperamos que não seja só uma via de ligação mais rápida a Espanha.
* Médico. Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra
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