Sábado, 27 de Novembro de 2021
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Sobre as infindáveis filas de trânsito

Ninguém gosta de filas de espera! Seja no talho, nos correios, ou no trânsito. Quando conseguimos antecipar a espera, preparamo-nos para ela – levamos um livro, jogamos no telemóvel, organizamos fotos no telemóvel, olhamos para o telemóvel. Quando não conseguimos antecipar a espera, ficamos retidos nas denominadas ‘filas de espera’

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As filas de espera – inclusive nos hospitais, as piores de todas – são um problema sério. Causam ansiedade nas pessoas envolvidas, ativamente na fila e passivamente nos outros que por nós esperam. Acumula-se ansiedade, mal-estar, raramente se reza. Polui-se o ambiente com gases tóxicos e com pensamentos em português vernáculo. Agora, num ou outro ponto, já somos interpelados, quando estamos em filas de espera, por malabaristas, fundraisers (cidadãos ‘pedintes’ para causas públicas) e, se estiverem numa fila de trânsito em São Paulo, por uma multidão de ofertas e de ofertantes.

As filas de espera são também um problema académico, sobretudo na unidade curricular de Investigação Operacional. E os colegas de IO têm muitas soluções para as filas de espera. Programam o problema, estudam-no e resolvem-no. Três passos que bastam para resolver muitos destes e doutros problemas: defini-lo, estudá-lo e resolvê-lo.

A Ética Académica impede-nos de entrar no gabinete de um vereador responsável pelo trânsito de uma cidade e de lhe mostrar por a+b como se resolve o problema. Os académicos são bons cidadãos, em 99.99% dos casos. Sentem os problemas deles e dos outros. Por vezes, depois de chegarem a casa frustrados com quinhentas filas de espera que os impediram de brincar 5 minutos com os filhos, de visitar os pais durante 5 minutos, de falar sem televisão com as pessoas que com eles compartilham a casa, inclusive de fazer uma festa num animal de estimação, descansam e sentam-se. Aí, todos os que conhecem os académicos já sabem que algo de muito importante está prestes a acontecer. Existe uma transfiguração. E os filhos, os pais, os companheiros e até os animais de estimação sabem – os académicos estão a estudar um problema. Definem-no, limitando-o, esvaziando dele a raiva que sentem pelas 500 filas de espera que reduziram a sua vida normal a trânsito, gases de efeito estufa, más caras e maus modos. Estudam-no, simulando métodos, incluindo variáveis de controlo, testando soluções, rasgando folhas escritas com soluções tentadas e não solventes da questão. Por fim, já os filhos, os pais, os companheiros e os animais de estimação dormem, os académicos sorriem. Conseguiram resolver o problema.

Vocês pensam que eles, no dia seguinte, vão a correr, exuberantes, para o gabinete do vereador responsável pelo trânsito de uma cidade para lhe mostrar por a+b como se resolve o problema? Não, por três motivos principais. Primeiro, os académicos não são petulantes – tratam bem os números, as noções e as outras pessoas. Se vocês conhecerem académicos petulantes, conhecem uma bizarria: porque um petulante nunca pode ser um académico e um académico jamais deve ser petulante. Segundo motivo – os académicos sabem que só vale a pena mostrar soluções a quem reconhece o problema e sobretudo a quem sabe que o problema existe e que é um problema. Portanto, os académicos muitas vezes esperam séculos, já feitos cinzas enquanto as suas palavras ficam vivas nos livros, pelo reconhecimento do problema quando eles tinham a solução séculos antes. Terceiro motivo – os académicos sabem que não se deve roubar o trabalho dos outros, nomeadamente, o trabalho de quem tem a obrigação de zelar pela fluidez do trânsito, de reduzir as filas de espera e de fazer com que as cidades avancem. Obviamente, até podem ajudar os tais da obrigação a resolver o problema. Bastaria um ajuste direto ao respetivo centro de investigação.

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