Sexta-feira, 1 de Maio de 2026
Em Foco“Sou uma pessoa como as outras”

“Sou uma pessoa como as outras”

Paulo André é natural de Sabrosa. Aos 25 anos, frequenta o 2º ano do curso de Teatro e Artes Performativas (TAP) da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Portador de síndrome de Down, isso não tem sido entrave para fazer o que mais gosta. Um dia sonha pisar grandes palcos.

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É no palco que Paulinho, como é conhecido, se sente bem. Sonha, um dia, fazer teatro musical, porque “gosto de teatro e de dança”, mas sabe que não será um caminho fácil.
Já foi notícia na revista Cristina e faz parte de uma agência de modelos. Já fez equitação, natação, tocou trompete numa orquestra e foi treinador de cães. É vaidoso, gosta de dar nas vistas e passar a mão pelo cabelo é a sua imagem de marca.

É na UTAD que vai passando grande parte do dia, onde estuda teatro. Foi lá que o fomos encontrar, num dos ensaios de final de ano, numa peça onde interpreta um empregado de balcão e responsável pelo karaoke.

‘”Quando era mais novo trataram-me mal, mandaram-me bocas e tive alguns problemas por causa disso”
Paulo André, Aluno da UTAD

“Os meus colegas são fantásticos”, conta, admitindo que “o mais difícil é decorar os textos e depois dizê-los, porque tenho dificuldade em falar”.

 

Nasceu com trissomia 21, alteração genética que, como se sabe, traz consigo o preconceito. “Quando era mais novo trataram-me mal, mandaram-me bocas e tive alguns problemas por causa disso”, confessa, mas “eu sou uma pessoa como as outras e vou mostrar que sou capaz de fazer o que gosto”.

Vê-lo representar é uma lufada de ar fresco. Em cima do palco, e não fosse a dificuldade na fala, nem daríamos conta de que estamos perante uma pessoa com trissomia.

FONTE DE INSPIRAÇÃO

Bel Viana é professora do Paulinho e embora já tenha tido alunos com trissomia 21, “nunca tinha encontrado uma pessoa tão especial como ele, com tão boa vontade e bom coração”.

“O Paulinho é um menino curioso, trabalhador e que propõe trabalhos. Chega a perguntar-me se pode fazer determinado monólogo ou cantar uma música, diz que quer tentar. Está sempre preocupado com o trabalho e em melhorar, o que é fantástico”, afirma.
Chega a ser até uma fonte de inspiração para os colegas. “Ele já esteve em várias turmas e os colegas recebem-no sempre muito bem, o que é de louvar. Está bem integrado, todos o ajudam nos trabalhos e não há diferenças entre mim e ele ou com os colegas. É tratado da mesma maneira”.

Alexsandra Lima é uma das colegas de turma do Paulinho. À VTM explica que “trabalhar com ele é desafiante, mas ele é uma pessoa muito dedicada, o que ajuda muito”, acrescentando que “está sempre disponível para nos ajudar também”.

Sobre o ensaio a que assistimos, Alexsandra refere que “nós já tínhamos o grupo formado e ele ia apresentar algo sozinho. A professora, entretanto, disse para ele vir para o nosso grupo e ele encaixou-se perfeitamente. Trabalha muito, principalmente em casa, e o resultado está à vista”.

“Eu vejo muitas novelas e estou atento ao que fazem, ao que dizem. Tenho até um amigo que participou nos ‘Morangos com Açúcar’ e sempre que posso falo com ele. Vai-me dando alguns conselhos”.

APRENDIZAGEM CONSTANTE

Anabela Oliveira é a diretora do curso de TAP e admite que “tem sido uma aprendizagem”, porque “nunca tinha dado aulas a alguém com trissomia 21, nem sabia quais eram as suas limitações”.

O receio rapidamente deu lugar a um sentimento de “orgulho”, porque “encontrei um aluno muito interessado, com muita vontade de participar. Na unidade curricular que leciono, as curtas metragens que pedi para verem em casa ele viu sempre e mostrou ser muito perspicaz. Ele vai aos pormenores que mais ninguém vê e pergunta sobre eles”.

“Trabalhar com ele é desafiante, mas como é uma pessoa muito dedicada, ajuda muito”
Alexsandra Lima, Colega de turma

“É verdade que a grande dificuldade do Paulinho é na fala, principalmente quando está mais excitado, mas conseguimos dar a volta a isso”, confessa, lembrando que, apesar disso, “durante os ensaios para o exercício público do ano passado ele sabia as falas dele e as dos colegas. Se faltasse alguém, ele oferecia-se para substituir essa pessoa ou dava a deixa”.

 

No final desse espetáculo, Anabela recorda as palavras do aluno. “Ele disse: eu gosto disto, esta é a minha vocação professora”.

Infelizmente, a sociedade “ainda não está preparada para pessoas como o Paulinho”, lamenta Bel Viana, salientando que “são tão capazes como as pessoas ditas normais. Têm as suas dificuldades, como nós temos as nossas. Ele tem dificuldade na articulação das palavras, mas em termos de expressão corporal e facial o Paulinho é muito bom. Às vezes, é melhor que os colegas”.

Tem, por isso, “um futuro promissor pela frente, se continuar com esta vontade”, afirma.

Paulinho numa das aulas de TAP ©EN

APOIO DA FAMÍLIA

Estima-se que em Portugal existam cerca de 15 mil pessoas com síndrome de Down. Muitas famílias, quando recebem a notícia, optam pelo aborto, por não se sentirem capazes de lidar com o preconceito.

Maria Sequeira, mãe do Paulinho, desconfiou que algo se passava, “mas só quando ele nasceu é que soubemos que ele tinha trissomia 21”.

Questionada sobre se avançaria com a interrupção da gravidez, caso soubesse da sua condição mais cedo, admite que “só se me dissessem que teria algum problema de saúde muito grave associado, caso contrário, não”.

“Ele tem dificuldade na articulação das palavras, mas em termos de expressão corporal e facial é muito bom”
Bel Viana, Professora

É o segundo filho e tem uma diferença de oito anos do irmão. “Aquilo que nos disseram foi para o estimularmos, e foi isso que fizemos. Meti-o nos cavalos, na ginástica, numa banda de música” e, felizmente, “nunca houve muito preconceito”.

 

“Sempre exigi, na escola, que o tratassem como uma criança normal, apesar de me dizerem que não sabiam como atuar”, vinca.

Ao longo dos anos, “tentei mostrar-lhe que ele é capaz de, dentro dos seus limites, fazer as mesmas coisas que os outros, tem que lutar por isso. Pode demorar mais tempo, mas consegue lá chegar”.

Sobre o seu gosto pelas artes, “é assim desde muito cedo” e “ele acredita que vai ter um futuro brilhante na área”.

“A minha mãe e a minha avó sempre me apoiaram. O meu pai não queria muito que eu fosse para teatro, é mais resmungão, mas dá-me muito amor”, salienta Paulinho.
E a mãe admite que “ele adora isto, é bom aluno e está mortinho para começar a trabalhar. Diz-nos que vai correr o mundo e nós só temos de o incentivar e ajudar. É preciso é que a sociedade seja mais recetiva”, conclui.

Enquanto esse tempo não chega, Paulinho vai fazendo o que mais gosta nos palcos da UTAD, onde é um dos melhores, e prova que a trissomia 21 não é entrave para se lutar pelos sonhos.

Paulinho foi notícia na revista Cristina ©EN

 


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