O CICLONE
O jornal “O Primeiro de Janeiro” de 16 de fevereiro desse ano (domingo, dia a seguir ao vendaval) reportava:
“Os prenúncios da catástrofe começaram a adivinhar-se quando no Governo Civil do Porto decorria a cerimónia de cumprimentos ao novo governador, o Dr. António Augusto Pires de Lima. O dia escureceu bruscamente, as árvores começaram a sacudir os seus ramos de forma agressiva, alguns trovões fizeram-se ouvir. De repente, as comunicações telefónicas e telegráficas avariaram quase totalmente”.
Na mesma cidade, o “Jornal de Notícias” também reportou o início da tempestade:
“Embora a manhã de ontem parecesse anunciar a aproximação de um tempo sofrível – chuveiros intermitentes e aparição do astro-rei (“Não há sábados sem sol”) antes do meio-dia, porém, começou a tomar mau cariz o estado geral atmosférico. Nuvens negras, rajadas de vento tempestuoso e chuva grossa flagelaram todos os que, por dever, tinham de atravessar as ruas e praças da cidade”.
O mesmo diário matutino da cidade invicta referia depois que “os estragos nos prédios foram importantes: telhados e claraboias sofreram largamente os efeitos do furioso vendaval”. Junto ao mar que se encarapelou formaram-se “enormes vagalhões” que assaltaram os molhes e as praias.
UM SILÊNCIO DE IMPRESSIONAR E O SOM DAS SIRENES DOS BOMBEIROS
Os transportes urbanos (carros elétricos) deixaram de circular às primeiras horas da noite e a cidade ficou mergulhada num silêncio impressionante. A partir de certa altura ouvia-se, apenas, o som das sirenes dos bombeiros. Os comboios que estavam a circular interromperam a marcha em plena via, ficando bloqueados em lugares desconhecidos por não funcionar o caraterístico telégrafo dessa ocasião que ligava, as estações ferroviárias.
Curiosamente, “O Comércio do Porto” dizia que no dia seguinte, à noite, ainda se desconhecia a sorte dos seus passageiros.
Claro que se amontoavam os destroços: árvores derrubadas, postes e tabuletas, tapumes, telhados, claraboias, varandas, mesmo estátuas e motivos escultóricos decorativos das fachadas dos prédios. O vento chegou a soprar a 145 quilómetros por hora. O aspeto geral era desolador.
No Observatório da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, chegou a registar-se uma rajada com a velocidade de 170 quilómetros por hora. A partir daí, a própria aparelhagem daquele observatório avariou e a cúpula do edifício foi arrastada em direção ao rio Douro. Em Lisboa, o vento não chegou a ultrapassar os 127 quilómetros, conforme rezam as crónicas vindas da capital, mas em Sintra atingiu 200. No Porto, o barómetro descia 698 milímetros, marca nunca batida em tempos anteriores de que houvesse memória.
ESPECULAÇÃO NO PREÇO DOS ARTIGOS MAIS NECESSÁRIOS
A situação era grave. As populações mais pobres, que viviam em condições de insalubridade e insegurança, foram as mais afetadas pelo temporal. E mais tarde viram-se atingidas pela especulação de muitos comerciantes que fizeram subir desmesuradamente os preços dos artigos de maior carência. Então como agora (71 anos depois) acontece.
“Na cultura popular ficou conhecido como o ano de quarenta e um em que o vento levou tudo pela frente e não ficou telhado nenhum”
MARIELLE DISKINS
in “Wikipédia, a enciclopédia livre”
Também surgiram os apoios e as ajudas. O governo de Salazar dizia-se capaz de enfrentar a tragédia e, como prova, oferecia um crédito especial de 20 mil contos para começar a atacar os problemas. Como tal auxílio não chegou, foi a própria população e os jornais da época a organizar coletas para ajudar os mais necessitados, como a que foi levada a cabo pela Emissora Nacional. Uma do “Jornal de Notícias” rendeu 160 contos; o “Diário de Notícias” e “O Século” conseguiram numa semana 205 e 300 contos.
E foram criados impostos especiais para constituir um “Fundo de Socorro Social”: nas caixas de fósforos, nos isqueiros, nos bilhetes do cinema e dos espetáculos tauromáquicos e até em certas peças de vestuário, como meias, chapéus e luvas.
(Ao que dizem certas “más-línguas”, ainda hoje andamos a pagar esses impostos especiais que nunca foram retirados por decreto do mesmo governo no final da época da tragédia. Mas isso são contas para outro rosário …).
TERRAMOTO
Em 28 de fevereiro de 1969 ocorreu um sismo de elevada magnitude em praticamente todo o país, um pouco antes das quatro horas da madrugada. Houve alarme e pânico entre a população, houve cortes na energia elétrica e nas comunicações. A região do Algarve foi aquela em que o sismo mais se fez sentir.
MILHARES DE PESSOAS NA RUA
Morreram 13 pessoas e milhares delas saíram de suas casas para as ruas, de pijama e de chinelos, pois foram surpreendidas pela forte trepidação quando dormiam. Segundo o Serviço Meteorológico Nacional da altura, “as consequências do sismo só não foram muito mais graves, porque o seu hipocentro parece ter-se localizado a profundidade superior aos 30 quilómetros habituais”.
“Embora o tremer da terra não tenha causado muitas vítimas – podem contar-se pelos dedos os que pereceram sob os escombros e até os que morreram de susto – o certo é quer a violência do abalo provocou vastas destruições em vários pontos do país, nomeadamente em Lisboa e no Algarve. Milhares de pessoas ficaram em pânico e uma percentagem elevada da população de Lisboa sofreu um choque psicológico muito profundo de que viria a libertar-se, em parte e muito lentamente, meses depois”.
(“Diário de Lisboa” de 31 de dezembro de 1969, num trabalho de balanço sobre esse ano).
Esse mesmo jornal, vespertino, noticiou amplamente os acontecimentos sentidos na madrugada e na manhã desse dia, destacando essencialmente os graves transtornos e as preocupações sociais sobre as pessoas que tinham sido vítimas dessa desgraça.
“O pavor causado pelo sismo foi causa de situações insólitas, em especial durante o êxodo das pessoas que se apressaram a abandonar as suas residências não fosse a telha debaixo da qual se abrigavam lhes caísse em cima. Mesmo em trajes sumários, muitos ainda tiveram tempo de ir à procura dos seus animais domésticos de estimação, trazendo-os ao colo para a rua, agasalhados com mil cautelas. Houve também pessoas que se meteram nos automóveis e vieram dormir para os grandes espaços abertos da capital, longe dos prédios, com receio de que se repetissem os abalos sísmicos”.
COLAPSO NOS HOSPITAIS E NOS TELEFONEMAS
Tendo em conta que alguns hospitais sofreram danos nas enfermarias cujas paredes ficaram com extensas rachadelas, o Ministro da Saúde (Lopo Cancela de Abreu) ordenou que os doentes dessas enfermarias fossem evacuados, ocupando-se da operação 20 ambulâncias dos ombeiros e dez carros do Exército. O jornal clarificou que os doentes foram transferidos para Alcoitão e para o Instituto de Assistência aos Inválidos.
O congestionamento excecional das linhas telefónicas até ao fim da manhã e mesmo durante a tarde causou o colapso de muitos serviços, levando a rádio a apelar para que a população fizesse apenas chamadas relativas a casos graves.
CARACTERÍSTICAS DO TERRAMOTO
Epicentro: Oceano Atlântico, a sudoeste de Cabo Verde
Magnitude: 7,9 na escala de Richter
Incidência: 3.41 horas de 28 de fevereiro de 1969
Resultado: Compressão interplacas (Africana e Euroasiática) a sudoeste ibérica
Zonas atingidas: Portugal, parte de Espanha e norte de Marrocos.






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