Segunda-feira, 20 de Abril de 2026
Vila RealVila Real: Cidade com história e património

Vila Real: Cidade com história e património

Vila Real é uma cidade portuguesa com uma história rica e um vasto património, que remonta à Idade Média. Nasce como vila na Idade Média, mas “vila”, nesse tempo, significava aldeia, como explica à VTM o historiador Vítor Nogueira. 

-PUB-

“Nessa altura só havia vilas e cidades. Quando Portugal nasceu só havia oito cidades, que estavam muito ligadas à ideia, não só do seu próprio tamanho, mas, sobretudo, a relação direta com as sedes das dioceses. Por exemplo, Braga, Porto e Lamego já eram cidades”, conta o historiador, adiantando que até ao final da Idade Média só nasceu mais uma cidade, a Guarda. “Surge porque foi necessário transferir para ali uma diocese que andava mal segura pela Egitânia e estava sediada em Idanha-a-Velha”.

Vítor Nogueira lembra que havia terras mais antigas do que Vila Real, que nunca foram “vila” pelos padrões que são hoje utilizados. “Vila Marim, Vila Seca e Vila Nova, aqui bem perto, são alguns casos. Esta nomenclatura é muito típica da Baixa Média”.

ROMANOS

Se formos ao tempo dos romanos, ‘vila’ já quer dizer outra coisa, “é uma estrutura agrícola grande, bem dimensionada, com pecuária, que os romanos fomentavam muito para poderem produzir, de maneira quase industrial, pelos padrões daquela época”. 

Mais tarde, a ‘vila’ romana já não é a vila da Idade Média, do século XII, altura em que se começou a chamar Quinta ou Quintã, ou seja, quintas grandes. 

Vila Real foi fundada por D. Afonso III em 1272. Em 1289 há o segundo foral de Vila Real, o primeiro de Dom Dinis. “É D. Afonso III quem começa por fundar Vila Real e D. Dinis (seu filho) é quem vai consolidar a cidade”.

O objetivo era que Vila Real fosse a Capital da Terra de Panóias, do Distrito Medieval. Mas, recuando aos padrões da Idade Média, com tão pouca gente para aí espalhada, como é que se fazia para tornar uma terra numa capital? 

“Não se juntavam pessoas de um dia para o outro. Onde iriam morar? Que campos iriam cavar? E do que se iriam alimentar? Isso foi uma coisa que demorou perto de 20 anos a consolidar”, explica o historiador, recordando que, em 1293, já há um terceiro foral de Vila Real, o segundo de D. Dinis. “Isto quer dizer que ainda era preciso dar mais condições às pessoas para que isto se constituísse como Cabeça da Terra de Panóias, na altura não se dizia capital, dizia-se cabeça”.

CAPITAL 

Vítor Nogueira refere que Panóias “era a região que ia desde a serra do Marão até ao rio Tua, que apanhava o Planalto de Jales e ia até ao Douro (Canelas e Poiares)”, lembrando que era preciso arranjar uma capital. “Essa era a principal razão”. Na altura, “havia duas capitais, uma era em Constantim, a capital administrativa, judicial, política e económica, e outra era no Monte de São Bento, que era a cabeça militar, que era um castelo roqueiro”, ou seja, são aqueles “mais rudimentares que saem do período da Reconquista, a que se chamava Castelo de São Cristóvão”.

Segundo o historiador, o problema é que a terra de Panóias tinha uma capital bicéfala. Tinha Constantim, que não conseguia madurar suficientemente, porque não se podia defender e não havia como construir ali castelo, numa zona muito baixa”. Por outro lado, havia o Castelo de São Cristóvão, que estava descentrado em relação ao território”.

“No século XII nasceu Portugal, no século XIII nasceu Vila Real. E o nome surge porque é de fundação régia, o que é raro”
Vítor Nogueira
Historiador

Pelo que era necessário resolver isto para conseguir uma terra que se constituísse como cabeça, que “pudesse crescer demograficamente para segurar tudo isto à sua volta. Foi assim que nasceu Vila Real”.

ORIGEM DO NOME 

Mais de 90% das localidades à volta da cidade já existiam e são mais antigas do que Vila Real, como Vila Marim, Lordelo, Adoufe, Quintela, entre muitas outras. 

No século XII nasceu Portugal, no século XIII nasceu Vila Real. E o nome surge, porque “é de fundação régia”, o que é raro. “Vila Real de Santo António, muito mais recente, também é de fundação régia”.

Vila Real surge porque há uma intenção clara da coroa em arranjar uma “capital de jeito para aquela zona ou estamos perdidos, que aquilo nunca mais medra, nunca mais se desenvolve”, dizia o rei na altura. “E ao não se desenvolver, perdem-se impostos que o rei queria cobrar”, reafirma o historiador, adiantando que isso levou a um crescimento “muito rápido”, porque se deram condições para as pessoas se instalarem em Vila Real. E com o processo consolidado, o “rei já conseguia cobrar impostos para a coroa”. 

DUAS ESTRADAS 

O sítio onde Vila Real apareceu “é muito importante para lhe dar o carácter logo de capitalidade, porque se cruzavam aqui duas das estradas principais e ainda hoje é assim”. 

Hoje temos a A24 e a A4. E antes destas estradas, no final do século XIX, tínhamos a Estrada Nacional 2 e a Estrada Nacional 15, que aqui se cruzam também”, e que deram origem às próprias ruas da cidade. “Por exemplo, a rua Direita era a estrada que ia para Bragança. A rua 31 de Janeiro é parte da estrada que seguia para Chaves. Nunca se construíram estradas até ao século XIX, elas iam sendo consolidadas, mas as carroças só chegaram muito tarde”. 

Vila Real “vai ser construída nesta encruzilhada numa zona onde havia uma aldeia muito pequenina chamada Sermires, que não estava a madurar e à qual foi preciso dar condições, porque estava naquilo que nós viemos mais tarde a chamar a Vila Velha, que tem condições naturais defensivas, ou seja, ao contrário de Constantim, já não era difícil de defender. Bastava construir uma muralha a norte para tornar facilmente defensável toda aquela área, que vai chamar-se a Vila Velha. Depois disso, Vila Real cresceu mesmo muito rápido, porque se deram muitas condições para atrair pessoas”. 

No século XVIII instalam-se aqui muitas famílias nobres. “Sempre houve famílias nobres. Mas, a partir da parte final do século XVII e no XVIII, constitui-se aquilo a que se começou a chamar na altura a corte transmontana ou a corte de Trás-os-Montes. “Vila Real começou a ganhar fama com a vinda de muitas famílias nobres, que vieram por causa do vinho produzido no Douro. Era a cidade mais apetecível de toda a região vinhateira, onde se ganhava muito dinheiro com o vinho”. 

“Muitas famílias enriqueceram devido à explosão do vinho do Porto. Havia Lamego, que também concentrou algumas famílias, mas, depois, por outras razões, não cresceu tanto como Vila Real. Já a Régua era um pequeno entreposto, com umas casinhas, que foi crescendo muito por força do vinho do Porto”.

Agora, imaginem o que era aquela gente do século XVIII. “Se eu fosse rico nessa altura, e se eu tivesse, por exemplo, um grande casarão em Vilarinho dos Freires, eu queria ter uma casa na vila, na capital de toda esta zona. Claro, que isto não explica tudo, mas explica a maior parte do crescimento económico de Vila Real a partir do século XVIII”. 

CIDADE 

Em 1823, quase 100 anos antes, houve uma primeira tentativa com uma petição assinada por centenas de vila-realenses dirigida ao rei a solicitar duas coisas: que Vila Real se constituísse como sede de uma diocese e que fosse elevada à condição de cidade. E até se propunha que mudasse o seu nome para Cidade Real. “O problema é que, nessa altura, estávamos no período das lutas liberais e os de Vila Real ficaram do lado dos que perderam”. Ou seja, Vila Real “aproximou-se, maioritariamente, dos absolutistas, mas quem ganhou foram os liberais. Isso não beneficiou muito Vila Real, que teve de esperar mais uns tempos”, explica Vítor Nogueira. 

Já em 1922, quando se constituiu a diocese, isso “foi o impulso final para a elevação de Vila Real à categoria de cidade. Embora já não fosse uma condição obrigatória como era na Idade Média”. No entanto, “já não havia maneira de dizer que não”.

Vítor Nogueira recorda que a diocese de Vila Real é constituída “muito por força” de Manuel Vieira de Matos, um arcebispo de Braga, que era de Canelas. É ele que propõe que a arquidiocese de Braga seja dividida, porque era enorme. Foi um processo muito pacífico, porque é na própria diocese de Braga que nasce a ideia de constituir a diocese de Vila Real”.

Em 1925, Nicolau Mesquita, que nasceu em Chaves e que tinha sido governador civil em Vila Real, era deputado e “propõe a elevação de Vila Real à categoria de cidade, sendo aprovada a primeira cidade para o seu distrito”, conclui o historiador.


APOIE O NOSSO TRABALHO.
APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências, nunca paramos um único dia.

Contribua com um donativo!

VÍDEO

Mais lidas

PRÉMIO

ÚLTIMAS NOTÍCIAS