Terça-feira, 27 de Julho de 2021
©Agostinho Chaves

35 anos da UTAD: Depois do sonho, a grande realidade

A ideia fervilhava e vinha de longe. O interior do país precisava de uma Universidade. Os tempos não eram os de agora. Frequentar estudos universitários implicava muitas coisas que agitavam custosamente os agregados familiares (...)

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A ideia fervilhava e vinha de longe. O interior do país precisava de uma Universidade. Os tempos não eram os de agora. Frequentar estudos universitários implicava muitas coisas que agitavam custosamente os agregados familiares das nossas comunidades que, com as devidas exceções numa época pobre, triste e cinzenta, viam as dificuldades crescer quando um estudante, acabados os seus estudos secundários, teria de “fugir” para os locais mais centralizados, litoralizados, concentrados, caros e distantes do Porto, Lisboa ou de Coimbra.

Pessoas de bem “fizeram” a UTAD

Era, pois, um sonho, apenas um mero sonho.

(“Vai longe o tempo do empirismo e intuições. Tudo hoje tem por base algum conceito científico e suas consequências. Admitamo-lo: com ou sem reação, a Ciência é que comanda a vida e não já o sonho, como pretendia António Gedeão; e a Tecnologia sua filha é que nos fabrica as coisas que já não dispensamos no nosso dia-a-dia, porque fomos tão meticulosamente treinados para as não dispensar” – A. M. Pires Cabral, março de 1997, na revista da NERVIR que dedicou as suas páginas ao “Ensino Superior em Trás-os-Montes”).
Mas o sonho foi crescendo e, mais importante do que isso, foi-se cimentando nas estirpes que defendiam tal pressuposto. Não havia autoestradas do conhecimento nem as outras que há hoje. Também seriam sonhos da mesma espécie.

E lá tiveram os transmontanos, pessoas de bem e de paciência, de ir a Lisboa, ao Terreiro do Paço e à Assembleia da República, falar com os ministros e secretários de Estado, tentando convencê-los de uma coisa primária, simples, indiscutível: o interior do país precisava de uma Universidade. Por todas as razões e mais uma, a desprotegida região de Trás-os-Montes era a maior e melhor oferta. Pela localização geográfica, pela sua cultura, pela sociologia e antropologia, pelo historial advindo desde Dinis, o Rei-poeta, Vila Real teria de ser a hospedeira dessa universidade cujos cursos tivessem em conta as caraterísticas da terra, dos montes, dos rios, dos ambientes, dos biomas e dos ecossistemas.

Uma subida degrau a degrau

Em 1973, foi criado um antecedente esperançoso. Era o Instituto Politécnico de Vila Real. Um ano depois, com a data libertadora de abril, muitas coisas mudaram e o IPVR passou a Instituto Universitário. Estávamos em 1979, subindo degrau a degrau a marcha que nos levaria ao topo. Então, sim, no ano de 1986 formou-se a UTAD, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. E foi aquilo que lemos num jornal da nossa região: “Um dia histórico”.
Foi há 35 anos. No dia 22 de março foram inauguradas as instalações da UTAD, uma sigla que tem hoje expressão de palavra. A UTAD é fundamental para a cidade, para a região, para a vida do interior. Cerca de três mil estudantes vieram para aqui (hoje já atingem a cifra dos sete milhares) e fizeram crescer a cidade que se redescobriu e se renovou na margem esquerda do rio Corgo, para além da ponte metálica e da antiga estação ferroviária e do seu largo hoje tão alindado.

Um dia histórico

A inauguração da Universidade de Trás-os-Montes foi presidida por um algarvio, Aníbal Cavaco Silva de seu nome, era o primeiro-ministro de Portugal. A sessão solene decorreu nos Paços do Concelho. Ele disse: “Nasci, como sabem, no outro extremo de Portugal. Mas sinto-me muito identificado com as pessoas do Norte, porque terei, talvez, alguns traços do temperamento dos transmontanos que são considerados frontais e determinados, sóbrios e frugais, nunca virando a cara às contrariedades”.

(“A UTAD representa uma das experiências de maior sucesso no campo do Ensino Universitário em Portugal” – Primeiro-ministro Cavaco Silva, na cerimónia de inauguração da UTAD, em março de 1986).

Alfredo Jorge Silva que foi secretário de Estado do Ensino Superior, afirmou: “Trás-os-Montes e Alto Douro, que os condicionalismos da interioridade e do descaso do poder central por muito tempo votaram ao isolamento, possui hoje – o que é a concretização de um velho sonho dos transmontanos – uma rede pública de ensino superior, articulada em torno da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e do Instituto Superior Politécnico de Bragança. Ao cabo de mais de 20 anos do ensino superior em Vila Real e de uma década de ensino superior politécnico de Bragança, a região demonstrou cabalmente merecer a confiança e a aposta que se traduziu na criação e no desenvolvimento destas instituições” (in “Trás-os-Montes empresarial”, revista da NERVIR/Associação Empresarial do Distrito de Vila Real, março de 1997).

Dar resposta aos novos desafios

É indesmentível a importância da UTAD na série de transformações que acrescentaram mais-valias inatas deste pedaço do país que estavam escondidas à sombra da inércia mais habitual até ao seu aparecimento. Para além da estrutura (com o crescente preenchimento pedagógico de cursos que têm constituído alternativa a outros centros universitários do país e outros ainda de raiz complementar – a criação de um Centro Académico Clínico / (futura Faculdade de Medicina onde já existe, desde sempre e com sucesso, formação na área da Medicina Veterinária?) é agora uma nova ambição, cada vez mais próxima e possível – assim como as sequelas complementares que a universidade implica nas novas oportunidades para as pessoas que de aqui são naturais, que aqui vivem ou que cá se abrigam, beneficiando da tradicional hospitalidade do meio e da qualidade de vida que dele emergem.

(“É necessário dar uma resposta aos novos desafios da Humanidade, neste período trágico devido à pandemia. É preciso repensar a saúde. As alterações climáticas conduzem ao aparecimento de doenças nos ecossistemas que se transmitem dos animais ao ser humano, logo, o país necessita forçosamente de uma nova área de investigação”) – António Fontainhas Fernandes, ex-Reitor da UTAD, em “Jornal de Notícias” de 24 de março de 2021, segundo Eduardo Pinto.

Reflexo do enquadramento inovador que a UTAD sempre manifestou, encontra-se de pé a possibilidade de mais uma iniciativa que passa pela criação de uma licenciatura conjunta em Engenharia Florestal e Biotecnologia Florestal.

“A Engenharia Florestal tem tido baixa procura nos últimos anos, mas há procura no mercado e necessidade de rejuvenescimento dos quadros, nomeadamente das autarquias com competências acrescidas em gestão florestal. Será um curso multidisciplinar. As instituições não podem continuar estáticas. No setor agrário é preciso repensar a oferta. A Agricultura Inteligente é agricultura ou é engenharia? São desafios a que as instituições têm que dar resposta” – António Fontainhas Fernandes – idem.

De regresso ao dia em que foi inaugurada a Universidade, em Vila Real, relembremos, como síntese, as palavras então proferidas por Joaquim Lima Pereira na sessão solene:
“Esta deve ser uma universidade adulta, porque real, porque prática. Os meios postos à disposição da UTAD possibilitam, com os passos afirmativos das pessoas que a sustentarão, pôr a universidade ao serviço da comunidade de modo fácil e devidamente regulamentado”.

OS REITORES DA UTAD

Emídio Santos Gomes é o atual Reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, depois do fim do mandato de António Fontainhas Fernandes, em 28 de março de 2021. Foi ele o eleito e será ele o timoneiro da majestosa nau durante os próximos quatro anos.

O primeiro Reitor da UTAD foi Fernando Neves Real que se ocupou da gestão da nova instituição entre 1986 e 1988. Joaquim Lima Pereira sucedeu-lhe, até 1990 (ano em que o cargo foi também ocupado brevemente por Luís Vaz de Sampaio e, depois, por José Manuel Torres Pereira, este até 2002. Armando Mascarenhas Ferreira foi Reitor até 2010. Antes de António Fontaínhas Fernandes (2013 – 2021) também Carlos Alberto Sequeira ficou ligado, por esta via, à memória permanente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

“Queremos uma universidade que olhe para o mundo, até porque o desafio da competitividade não é só para o país, mas sim global, percebendo, claro, qual o impacto para a região. Um objetivo da UTAD é colocar a instituição mais próxima do território, para que todos, sem exceção, sintam a universidade não como algo distante mas como ponto de referência de cada um” – Emídio Santos Gomes, Reitor da UTAD, em “A Voz de Trás-os-Montes”, de 31 de março de 2021, segundo Elsa Nibra.

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