Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Assalto à cerejeira

Eram tempos difíceis os anos 50, pois havia muita larica nas aldeias transmontanas…

Não havia propriamente fome quando as cerejas nas árvores se pavoneavam… os rapazes arranjavam sempre engenho e arte para entrarem nas terras onde a fruta deleitosa se exibia provocando inquietude nos estômagos vazios.

No mês de Maria o povo ia às novenas, no entanto havia rapazes que preferiam roubar cerejas a quem as tivesse. Antes, porém, fazia-se o trabalho de casa. Cada elemento do grupo estudava minuciosamente as cerejeiras mais adiantadas e de melhor qualidade assim como o lugar e a forma de lá chegarem sem correrem grandes riscos. Também se tinha em conta a hora exata de saberem quando os donos saíam para irem à novena, isto no caso de a cerejeira estar junto das casas.

Outro pormenor importante era o tempo que o pregador levava nas suas dissertações, pois havia alguns que se galvanizavam e levavam mais tempo, o que proporcionava uma maior colheita e até encher os bolsos. Em Mateus, por exemplo, quando se sabia que os pregadores eram o Padre Cardoso, o Padre Borges ou mesmo o Padre Portelinha, logo isso dava garantias de colheitas abundantes…. Normalmente o povo na sua ignorância não os compreendia porque o modo inflamado e erudito com que discorriam sobre o aparecimento de Nossa Senhora de Fátima aos pastorinhos era tanto que algumas pessoas até choravam, não conseguindo ouvir tudo o que esses afamados oradores diziam…

 Em finais dos anos 50, perto de Alijó morava uma linda e frondosa cerejeira junto ao cemitério numa grande quinta sempre vigiada por um homem de maus azeites. Tinha mau feitio, mas só fora de portas pois na sua modesta habitação era a mulher Celeste que o punha na linha… Nesse ano as cerejeiras estavam lindas porque o tempo tinha corrido de feição e o fruto mostrava-se irresistível para os gandulos que numa noite engendraram um cirúrgico assalto à cerejeira…

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Combinaram enganar o guarda e para isso em grande alarido fingiram alguns entrar na quinta do lado oposto à cerejeira aí a uns 100 metros… O guarda caiu na ratoeira e enquanto se deslocava para o sítio da algazarra, os restantes assaltantes sofregamente comiam e metiam nos bolsos e em pequenos sacos cerejas para os amigos.

No segundo dia, quiseram fazer a mesma partida, mas o guarda só fingiu cair na esparrela. Nessa noite estava nevoeiro e um dos assaltantes ao descer da cerejeira com a pressa escorregou e caiu exatamente do lado de dentro do cemitério onde se encontrava uma cova aberta, morada para um defunto que havia de ser enterrado no dia seguinte. O zeloso guarda entrou no cemitério para um ajuste de contas, mas o finório fez-se de morto em cima da campa e quando o guarda se aproxima apanha um valente susto, pois o arguto destemido levanta-se devagar em frente da cova e com voz cavernosa diz-lhe abrindo os braços: ”anda meu irmão, vem, deita-te aqui comigo, está na hora do teu repouso eterno…” O homem ficou tão assustado que fugiu dali a sete pés berrando que um morto o queria levar para a cova…

Durante vários dias o guarda andava empalidecido, derramado em delírios, com febres e ar fúnebre, não comia nem dormia a pensar naquela imagem tenebrosa que o consumia. A mulher Celeste contrariada lá lhe ia metendo o caldo de cebola à boca, porque o isco de toucinho, chouriço ou presunto não era preciso, disso ele se encarregava… Os rapazes, sabendo da situação do guarda decidem falar com ele, explicam-lhe tudo com ares de arrependimento e prometeram-lhe que não lhe faziam mais patifarias.

 Tudo volta à normalidade, não deixando o guarda de admirar e admitir que o rapaz tinha sido valente e que daria um bom guarda de uma grande quinta, ou mesmo um bom polícia.

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