Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Balbúrdia num hotel da capital

Num quarto de hotel da capital estirei-me ao comprido, passava já da meia-noite.

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Dei corda ao relógio cauny de 17 rubis. Antes saboreei a fresca da noite abrindo a janela, deitei-me ao comprido, enfiando-me depois debaixo dos brancos lençóis e fechei os olhos. Pura ilusão: acordei abruptamente com sons estranhos que deslizavam no corredor. Era um hóspede que chegava àquela hora para o quarto ao lado – o 27. Com estrondo e violência abriu a porta soltando, sem cerimónias, espirros e obscenidades. 

Tentei recuperar o sono. Tapei os ouvidos e cobri a cabeça com uma toalha perfumada. Minutos depois, a criatura sossegou, e eu, enfim, pensei que iria dormir.No quarto 27 a voz elevava-se, projetada em estrídulos ruídos de falsete, senti as pálpebras a latejarem rápidas e nervosas. Eram três da manhã e era como se eu tivesse levado dois coices na cara já amarrotada. O tagarela calou-se, mas por escassos momentos. 

Não demorou para que o hóspede do 27 saltasse para a banheira com modos virulentos esparrinhando a água que saía a jorros, ao mesmo tempo que cantava uma ária de Mozart, “ A Rainha da Noite”. Não me contive e protestei com veemência, soltando blasfémias e palavras azedas: era demais. Devo ter adormecido, mas por momentos, pois o estafermo começou a tocar no trombone-baixo uma melodia Wagneriana. Num outro quarto, alguém ressonava descompassadamente. No final de cada ronco ouvia-se um pequeno assobio a contratempo. Entretanto, o trombonista continuava animado com a música. Era impossível dormir. Eu estava por tudo. 

Por volta das cinco, um repenicar de campainhas fez-me saltar da cama, pensei tratar-se de um incêndio. E eu que abomino as alturas e os incêndios. Em pânico, desloquei-me à porta, mas afinal era uma trupe que transportava os seus instrumentos de música ao mesmo tempo que chamavam pelo Ventura, exatamente o homem do  27. Aquele corredor ficou numa balbúrdia. 

Os hóspedes saíram dos quartos revoltados com todo aquele inusitado “chinfrim”. Num dos quartos, vislumbrei uma mulher que mais parecia uma prostituta sem matrícula, mordendo os beiços pintados e carnudos. Um velho do quarto ao lado olhava-a inquieto com apetites gulosos. O hóspede que ressonava e assobiava continuava a fazê-lo, mas agora era mais em surdina. 

Tentei ainda dormir para justificar o preço do hotel. 

Já de saída a rececionista perguntou-me:

– Bons dias cavalheiro. Passou bem a noite?

– Pudera não dormir! – Atalhou ironicamente uma empregada, antecipando-se sabendo que eu tinha ficado ao lado dos músicos.

Depois de alguns momentos de hesitação respondi: – claro que sim. Não é todas as noites que se ouve Wagner em trombone-baixo e muito menos às três da manhã neste hotel que não terei o prazer de o recomendar a ninguém.

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