Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Balbúrdia num hotel da capital

Num quarto de hotel da capital estirei-me ao comprido, passava já da meia-noite.

Dei corda ao relógio cauny de 17 rubis. Antes saboreei a fresca da noite abrindo a janela, deitei-me ao comprido, enfiando-me depois debaixo dos brancos lençóis e fechei os olhos. Pura ilusão: acordei abruptamente com sons estranhos que deslizavam no corredor. Era um hóspede que chegava àquela hora para o quarto ao lado – o 27. Com estrondo e violência abriu a porta soltando, sem cerimónias, espirros e obscenidades. 

Tentei recuperar o sono. Tapei os ouvidos e cobri a cabeça com uma toalha perfumada. Minutos depois, a criatura sossegou, e eu, enfim, pensei que iria dormir.No quarto 27 a voz elevava-se, projetada em estrídulos ruídos de falsete, senti as pálpebras a latejarem rápidas e nervosas. Eram três da manhã e era como se eu tivesse levado dois coices na cara já amarrotada. O tagarela calou-se, mas por escassos momentos. 

Não demorou para que o hóspede do 27 saltasse para a banheira com modos virulentos esparrinhando a água que saía a jorros, ao mesmo tempo que cantava uma ária de Mozart, “ A Rainha da Noite”. Não me contive e protestei com veemência, soltando blasfémias e palavras azedas: era demais. Devo ter adormecido, mas por momentos, pois o estafermo começou a tocar no trombone-baixo uma melodia Wagneriana. Num outro quarto, alguém ressonava descompassadamente. No final de cada ronco ouvia-se um pequeno assobio a contratempo. Entretanto, o trombonista continuava animado com a música. Era impossível dormir. Eu estava por tudo. 

Por volta das cinco, um repenicar de campainhas fez-me saltar da cama, pensei tratar-se de um incêndio. E eu que abomino as alturas e os incêndios. Em pânico, desloquei-me à porta, mas afinal era uma trupe que transportava os seus instrumentos de música ao mesmo tempo que chamavam pelo Ventura, exatamente o homem do  27. Aquele corredor ficou numa balbúrdia. 

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Os hóspedes saíram dos quartos revoltados com todo aquele inusitado “chinfrim”. Num dos quartos, vislumbrei uma mulher que mais parecia uma prostituta sem matrícula, mordendo os beiços pintados e carnudos. Um velho do quarto ao lado olhava-a inquieto com apetites gulosos. O hóspede que ressonava e assobiava continuava a fazê-lo, mas agora era mais em surdina. 

Tentei ainda dormir para justificar o preço do hotel. 

Já de saída a rececionista perguntou-me:

– Bons dias cavalheiro. Passou bem a noite?

– Pudera não dormir! – Atalhou ironicamente uma empregada, antecipando-se sabendo que eu tinha ficado ao lado dos músicos.

Depois de alguns momentos de hesitação respondi: – claro que sim. Não é todas as noites que se ouve Wagner em trombone-baixo e muito menos às três da manhã neste hotel que não terei o prazer de o recomendar a ninguém.

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