Foi um ano muito complicado para Portugal, com os incêndios a consumirem em mais de 260 mil hectares, num total de 7.305 incêndios rurais registados de 1 de janeiro até 15 de setembro.
Comparando os valores de 2025 com o histórico dos 10 anos anteriores, assinala-se que se registaram menos 28% de incêndios rurais e mais 214% de área ardida relativamente à média anual do período.
Os dados provisórios do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) revelam ainda que o ano de 2025 apresenta, até ao dia 15 de setembro, o “quarto valor mais reduzido em número de incêndios e o valor mais elevado de área ardida, desde 2015”.
O distrito da Guarda foi, de longe, o mais afetado ao nível de área ardida, com 82.845 hectares consumidos (cerca de 32% da área total ardida), num total de 184 incêndios registados. Segue-se o distrito de Viseu, com 522 incêndios e 39.667 hectares ardidos (15% do total). O terceiro lugar é ocupado por Castelo Branco, com 229 incêndios e 39.396 hectares destruídos pelas chamas.
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O maior incêndio de sempre foi o de Arganil, que ardeu durante 12 dias e consumiu 64 mil hectares de floresta, mato e terrenos agrícolas.
Relativamente ao distrito de Vila Real, foram queimados 17.046 hectares, num total de 468 incêndios. Só no concelho vila-realense, no grande incêndio de agosto na serra do Alvão foram consumidos “5.866 hectares”, tendo sido debelado 12 dias após ter iniciado em Sirarelhos a 2 de agosto.
‘”Temos muitíssimos mais meios que tínhamos há 20 anos e há um terço dos incêndios. Mesmo assim não podemos falar só na ineficácia do combate, há que ter em conta as alterações climáticas”
PAULO FERNANDES
INVESTIGADOR DA UTAD
“Foi o maior incêndio de sempre no concelho de Vila Real”, revela à VTM Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), adiantando que “já houve maiores incêndios em Vila Pouca da Aguiar ou em Ribeira de Pena, mas no concelho este foi o maior”.
Comparando com o grande incêndio ocorrido em 2005, também no Alvão, o especialista em incêndios frisa que este teve “algumas parecenças”, porque também desceu a encosta, mas arderam quase menos 2 mil hectares”.
A nível nacional, o maior incêndio de sempre foi o de Arganil, tendo sido provocado por um raio. “Foram consumidos 65 mil hectares, num ano que foi o pior de sempre em termos de grandes incêndios”, acrescenta o professor.
CAUSAS
As mudanças climáticas começam a sentir-se em força e o ano de 2025 registou o verão mais quente da história recente de Portugal, com a temperatura média a ser 1,55 °C acima do normal. Estas condições de calor extremo aumentaram significativamente o risco de incêndios. Mas também as condições meteorológicas, com o vento forte, que atingiu rajadas até 80 km/h em algumas áreas, contribuiu para a rápida propagação das chamas, assim como a longa seca, que agravou o problema, tornando a vegetação mais inflamável.
“Temos ainda mais dias extremos, principalmente noites muito quentes, onde, por vezes, os ventos não baixam de intensidade. E depois as próprias alterações no território, porque há menos zonas agrícolas, que poderiam servir de tampão para as chamas abrandarem, mas, hoje em dia, essas zonas agrícolas são menos trabalhadas”, explica o professor.
A falta de limpeza das florestas e a ausência de faixas corta-fogo foram apontadas por especialistas como um fator que contribuiu para a intensidade e rápida propagação dos incêndios.
Embora as condições ambientais fossem propícias, a maioria dos incêndios teve origem humana, seja por negligência ou por ação deliberada.
Questionado sobre se hoje os incêndios são menos previsíveis, Paulo Fernandes é taxativo e diz que “não”. “Eu participei, com a força especial de Proteção Civil num programa que faz previsões para meia dúzia de dias com a intensidade do fogo e a velocidade da sua propagação espectável, com a meteorologia prevista, durante todos esses dias”. Pelo que, hoje em dia, “ninguém pode dizer ou alegar que não sabia que isto podia acontecer”.
FALHAS
Paulo Fernandes frisa que o combate falhou, “não por falta de meios”, mas possivelmente por falta de formação de quem comanda as operações. “De acordo com o nosso Sistema de Gestão de Operações (SGO), quem comanda tem de ser obrigatoriamente um comandante de bombeiros, mas isso não garante que seja a pessoa mais capacitada, porque os cargos de comando, muitas vezes, não são pela experiência, pela competência ou pela formação, são cargos políticos”, afirma, adiantando que “há cada vez mais pessoas capacitadas e com formação que estão noutras instituições e por não serem bombeiros está-lhe vedado o acesso a posições de comando. É isso que está escrito no nosso SGO e que contribuirá para as falhas, mas não será só isso, que poderá ser decisivo em termos de planeamento estratégico dos incêndios difíceis, rápidos, que duram muitos dias, com muitas frentes, exigem realmente conhecimento técnico mais apurado”.
Sobre os reacendimentos ou reativações sucessivas, Paulo Fernandes sustenta que “não tem nenhuma ciência, quer dizer quando se vê fumo, é ir lá e apagar. É isso que tem que se fazer”.
No incêndio do Alvão, “pelo menos durante três dias, ele esteve praticamente parado a remoer nas rochas de Arnal. É muito difícil apagar, têm de ser os sapadores com ferramentas, porque só a água não resolve. Fico com a sensação que poderia ter sido resolvido nesses três dias, em que se poderia ter feito mais e melhor para evitar que durasse tanto”.
“Enquanto não se apostar no pilar da prevenção, os incêndios vão ser sempre grandes e os meios insuficientes”
BRUNO GIRÃO
COMANDANTE BOMBEIROS
DE SANFINS DO DOURO
Já o comandante dos Bombeiros de Sanfins do Douro, Bruno Girão, admite “dificuldades de acesso ao incêndio, a falta de recursos de combate, a falta de coordenação entre os organismos e as condições de segurança (fumo e calor) dificultam as operações de combate”. Mas também outros fatores “como a seca, altas temperaturas e ventos fortes, que criam um ambiente propício à ignição e à rápida propagação do fogo”.
Para que estas situações não se repitam, o comandante sublinha a necessidade de se fazer bem o rescaldo e a vigilância. “Se não for bem feito, haverá grandes reacendimentos, que são difíceis de combater. Onde nós ganhamos o incêndio é na fase de vigilância”. No entanto, os bombeiros fazem o combate inicial e o ampliado, assim como o rescaldo, a vigilância, e chega a uma altura em que os bombeiros já não aguentam. Foi um ano muito duro para todos os agentes da proteção civil. Quem faz o combate, não podem ser os mesmos que fazem a vigilância”.
FERRAMENTAS ÚTEIS
Paulo Fernandes acrescenta que existem ferramentas que nos permitem verificar o perigo meteorológico de incêndio e até mesmo as suas características. “As previsões disponíveis ajudam-nos a retirar as pessoas dos locais mais perigosos, evitando mortes como ocorreram em 2017. Este ano isso foi bastante melhor, apesar de terem morrido alguns bombeiros. Este tipo de tragédias, com pessoas a morrer, casas e fábricas destruídas estão associadas a incêndios extremamente rápidos”.
O investigador reafirma que, “hoje em dia, a gente sabe tudo”. Através do satélite europeu Meteosat, que é um sistema meteorológico geoestacionário que fornece imagens da Terra para a previsão do tempo e monitorização climática. “Dá informação muito útil, até para dizer mais objetivamente que realmente as coisas não correm bem nos incêndios do verão”, sublinha, exemplificando que este satélite permite fazer um vídeo com as imagens de 10 em 10 minutos com a progressão do incêndio. E no futuro vai ser ainda melhor, porque vamos ter satélites com resoluções muito superiores, ou seja, vai dar-nos mesmo a realidade”.
O comandante dos bombeiros de Sanfins do Douro explica que, atualmente, os incêndios “têm de ser encorados às estradas, estradões, ou fazer faixas de contenção, com máquinas de rastos ou uso de fogo, para não haver os reacendimentos nos dias seguintes. Por vezes, sentimos que não há outra maneira de conter os fogos, porque os solos estão de tal maneira secos e as vegetações tão altas, que as pessoas não fazem ideia das dificuldades em extinguir os incêndios”.
PREVENÇÃO
Paulo Fernandes refere que atualmente há um maior gasto na prevenção. No entanto, é difícil de separar a prevenção do combate. “Por exemplo, a vigilância, as ações pré-posicionamento, tudo aquilo que antecede o combate, acaba por não ser bem prevenção”.
Ou seja, “é alguma prevenção, mas também é combate, porque se houver alguma ocorrência, eles estão lá perto e vão combater”.
Para o professor, vamos ter que investir “muito mais em gestão de combustíveis, com todo o tipo de intervenções mecânicas, com gado, fogo controlado, corte manual, entre outras”.
Mas “é muito caro, porque o território é vasto. A aposta terá de ser mesmo aumentar a gestão florestal para que seja menos vulnerável ao fogo”.
Bruno Girão dá exemplos de falhas na prevenção, como “não fazer a limpeza da vegetação seca em redor de habitações, não limpar regularmente os aceiros e o uso negligente de ferramentas na floresta”.
“Enquanto não de apostar no pilar da prevenção, os incêndios vão ser sempre grandes e os meios insuficientes”, conclui Brun
o Girão.







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