Sentar-se num riacho, olhar as estrelas e esperar delas a sua compreensão. Estava magoado com o mundo e com os homens e até com alguns amigos que agora o tinham excluído. Contudo, não queria morrer sem primeiro perdoar a todos os que o quiseram prejudicar em toda a sua vida artística como músico de clarinete da filarmónica da terra. A tristeza estava instalada como pulga assanhada em cão rafeiro. Revoltado, sentia uma doença no corpo, incurável, espécie de demónio fuzilando as trincheiras do seu corpo.
A doença alastrava-se vagueando agora pelos lugares onde fora feliz com a sua Isilda e seus filhos que desde cedo fugiram para longe para ganharem o santo pão. Dos filhos nunca tivera notícias. Soube que um deles tinha conseguido algum sucesso como músico numa filarmónica perto de Paris.
O sofrimento era agora insuportável com as noites preenchidas de insónias. A morte iria em breve separá-lo da família e do seu cão que já se coçava muito adivinhando o estado lastimável do dono. As insónias dominavam-lhe os pensamentos e o corpo tísico. Sentia-se uma espécie de fóssil agarrado às lembranças do passado naufragado no miolo do mar em águas revolteadas.
Com a malvada doença, o caminho contra todos os ventos estava pois desenhado. Implantado estava como sentinela, fiel até que a morte lhe surgisse de frente como vaca enraivecida. Logo de manhã saía de casa. O nascer do sol ainda o encorajava, porque sabia que estava em tournée giratória de despedida.
Agarrava-se a tudo aquilo que o pudesse fazer feliz. Em cogitações fugazes apertava a mulher no seu corpo tremente.
A força do vento parecia empurrá-lo, traçando-lhe um caminho em direção às estrelas que há poucas noites atrás ainda cintilavam, lindas e nos seus pontos mais luminosos parecia ver a silhueta dançante da sua Isilda, ela com os cabelos esvoaçantes e braços abertos como a querer chamá-lo…
Perante a doença incurável, o velho vivia resignado. Partir quanto antes… O ódio, a inveja e a vaidade são parasitas da vida de cada um de nós. São palavras universais, rostos da maldade, filhos do caos, demónios brutais. No declínio da vida, o velho homem estava disposto a perdoar. Ele fora em tempos filarmónico e agora era uma espécie de livro de sabedoria, livro com histórias lindas para contar… porém, já não as podia contar.
Infelizmente, a miséria de um velho não interessa à maioria das sociedades e isso dói porque o amor e a compreensão deviam ser a marca solene do respeito pelos idosos, poços de sabedoria. Do velho ainda se ouviu uma ténue canção de despedida. E o esplendor do silêncio iluminou o seu espírito.






