A festa de Nossa Senhora da Assunção, em Galegos, era sempre um dos pontos altos do ano. No dia 15 de agosto, a missa solene e a procissão enchiam as ruas de fé.
Quando a procissão saía à rua, era como se a própria alma de Galegos se derramasse em espiritualidade profunda. Depois vinham os momentos profanos, o arraial, a música e a alegria de sentir que, por um dia, o céu estaria mais perto da terra.
A Banda de Mateus chegou por volta das oito horas da manhã, determinada em cumprir com brio a sua prestação musical. À chegada, porém, deparámo-nos com a rua principal empestada de bosta fresca, em quantidade generosa.
À frente de um curral de vacas, a estrumeira era tal, que tivemos de parar; dos montes de excremento subiam vapores quentes e húmidos que obrigavam a engolir o fôlego. Ainda assim, a arruada lá se fez.
Seguiu-se o mata-bicho: pão com queijo e vinho abundante, sem concessões. No final já se faziam horas da missa, e o pároco de Constantim, velho e sem paciência, aguardava-nos à porta da igreja, gesticulando os braços, enquanto os óculos lhe escorregavam do nariz numa luta perdida contra a gravidade.
À tarde houve concerto num coreto improvisado em cima de dois atrelados de tratores. O espaço era tão exíguo que foi preciso mais arte para caberem os músicos do que para tocar as partituras. O trompetista Miguel Martins, coitado, teve de tocar inclinado para trás, não fosse rebentar os tímpanos do António do Raul — tão colados estavam um no outro que mais pareciam siameses da mesma partitura.
Os músicos da percussão, sem direito a lugar nos atrelados, ficaram no chão, como soldados sem quartel. Zé Gomes, Zé Gago e Zé Comprido esticavam o pescoço para seguirem os compassos da música, levantando a cabeça como galos atentos ao sol. No final, Zé Gomes pagou o esforço: caiu em penitência, de tal modo torto do pescoço que nem o copo de vinho que lhe ofereceram conseguiu levar à boca.
No largo, estrumado de fresco, alguns pares arriscaram dançar ao som de números ligeiros. Era curioso ver os bailadores, engalfinhados na dança, de olhos no chão para não sujarem os sapatos domingueiros. Dançavam com mais receio da bosta do que de eventuais desafinações.
E assim se fez a festa: entre fé e cheiros, música e tropeções, vinho e penitências.
Já no fim, a cabeça de todos estava em Vassal, onde no dia seguinte nos esperava outro serviço, arraial renhido com a Banda de Nogueira… porque a vida das bandas não conhece descanso, nem fronteiras.




