Terça-feira, 21 de Abril de 2026
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Casas da Serra: Terra de um homem só

José mora sozinho na aldeia de Casas da Serra há pelo menos 15 anos. Enfrenta a solidão diariamente e admite que pensa mudar-se em breve da terra onde sempre viveu

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O despovoamento acentua-se na maioria das localidades do interior, que vão ficando “mais pequenas” e algumas em risco de desaparecer. O concelho de Boticas perdeu cerca de 750 habitantes, em 10 anos, de acordo com os últimos censos, passando de 5.750 residentes em 2011 para 5.002 em 2021.

Casas da Serra é a aldeia mais pequena do concelho, com apenas um habitante, que não se deverá manter ali por muito mais tempo.

José da Silva Ferreiro, 55 anos, nasceu naquela aldeia e sempre ali morou. Hoje “guarda-a” sozinho e é lá que o encontramos num dia de sol, no largo à entrada, que tem no meio um tanque com água a correr.

O parco casario, de cerca de uma dezena de construções, mostra que nunca foi muito populosa, mas José recorda que em cada habitação havia famílias numerosas. “Nesta casa eram oito filhos, naquela seis ou sete, noutra três e da minha parte éramos quatro”, diz, apontando para habitações em pedra, algumas com o telhado esboroado. Com três irmãos, todos foram saindo, um para o estrangeiro, outros para localidades mais próximas.

Depois da morte dos pais e da partida do último irmão ficou a morar sozinho na aldeia. “As pessoas foram indo embora, os mais velhos morreram. Fiquei só eu”.

“Dono” da aldeia, tem ao seu dispor uma vista privilegiada e exclusiva sobre a paisagem do Barroso, a quase 1.200 metros de altitude. É o silêncio que impera naquelas paragens, só intercalado com o zunido das ventoinhas do parque eólico ali perto.

Mas o tempo, admite, “aqui é muito agreste, e pior de inverno” com “frio, chuva, às vezes cai neve, mas já não tanta como antes”. Um dos motivos que o convenceu a deixar a aldeia. Espera, em breve, ir morar para a sede de freguesia, Cerdedo, onde diz que vai ser construída uma casa para se mudar, “com mais condições”.

O irmão mais velho, que foi morar para França, ainda o tentou convencer a emigrar e ir para a sua beira. Em 2007, depois de a mãe falecer, “o meu irmão queria levar-me para lá, arranjava-me um emprego, mas não me decidi”. “Pensei mal”, afirma, confessando um certo arrependimento, “mas agora já é tarde”. Ficou por ali também para cuidar dos pais.

“Fui criado com eles e para não os deixar…”. Depois, não queria deixar a terra que o viu nascer. Por um lado, pesa o gosto pelas origens, por outro o isolamento. “Já gostei mais de estar aqui do que agora, quando os meus pais eram vivos. Depois que faleceram ainda estava aqui bem, mas agora não, perdi a reação de estar aqui. De verão é uma coisa, de inverno é outra”, revela.

Agora diz que se pudesse escolher qualquer lugar para morar, seria no concelho de Boticas.
Chegou a ir visitar o irmão a França, o sítio mais longe onde esteve. Outra viagem que o marcou foi ao Porto, onde visitou o estádio do Dragão e assistiu a um jogo do seu clube do coração, tendo na altura conhecido jogadores. “Primeiro não queria ir, porque era na maré da covid. Como no estádio há muita gente pensei que me ia “enrascar”, depois lá me animaram a ir e gostei. Estive com o Otávio que até me deu uma camisola”, conta.

ISOLAMENTO

O abandono da isolada aldeia explica-se pela falta de oportunidades, a natureza agreste do local, onde mesmo o cultivo agrícola é desafiante, e pelas condições de vida numa localidade onde a luz elétrica chegou apenas em 2009, já após a morte dos pais de José, que na altura morava ali apenas com o irmão que pouco depois foi definitivamente embora, regressando apenas no Natal. Na altura, o então presidente da câmara de Boticas, um representante da EDP e uma comitiva deslocaram-se à aldeia, acompanhados por jornalistas que davam notícia da instalação da eletricidade em pleno século XXI na povoação mesmo ao lado do parque eólico da Serra do Barroso.

Durante a maior parte da vida, José teve vacas e os dias passavam-se a cuidar dos animais.

Agora, sem atividade e sem companhia, “custa mais a passar o tempo”.

VISITAS

A aldeia de um homem só ganhou alguma notoriedade e atrai curiosidade de algumas pessoas, que de vez em quando ali vão. “De verão, aos fins de semana, vêm aqui pessoas de fora, alguns já os conheço, que a cada passo vêm cá”, conta. Souberam da aldeia e depois de a conhecer passaram a ser visita assídua e regressam para ver José.

Diariamente encontra um pastor que guarda as cabras na aldeia, apesar de morar em Coimbrões, para poderem pastorear os terrenos naquela parte da serra. “Todos os dias o vejo”, assim como à funcionária da junta de freguesia que distribui as refeições preparadas no Centro Social de Atilhó, “mas o resto do dia cá estou, sozinho”.

Não tem carro, mas isso não o impede de ir saindo, quer para a aldeia de Pereira, a 45 minutos de distância a pé, ou, quando precisa de alguma coisa, para Salto, de boleia, ou Boticas, na carrinha da junta de freguesia.

Diz não ter medo de ali estar sozinho, mas admite que, por vezes, fica preocupado que lhe possa acontecer alguma coisa, como em 2023. “Foi em dezembro, fui para me deitar, não sei o que se passou, fiquei lá caído. A senhora que traz a comida não me viu aparecer e deu comigo no chão”, recorda, tendo ficado mais de um mês e meio internado, primeiro nos hospitais de Chaves e Vila Real e depois numa unidade de cuidados continuados. “Desde que me aconteceu isso tenho mais receio”, confessa.

FUTURO

O futuro desta aldeia quase fantasma já se antevê e poderá ser acelerado com a vontade de sair de José. “Saudades posso ter, mas não será como até aqui”, acredita. Após a mudança conta subir a serra com frequência. “No inverno estou ali, que é mais agreste e a casa não tem condições nenhumas, mas no verão a cada passo venho aqui”.

Cerdedo deverá ser a próxima morada, onde será construída uma casa com o apoio do município e da junta de freguesia. “Fui eu que escolhi ir para lá. O projeto já está assinado e estou à espera”.

‘Todos os dias vejo um pastor e a senhora que traz a comida, mas o resto do dia cá estou, sozinho”
José da Silva Ferreiro

Mas o habitante também conta que já várias pessoas propuseram comprar casas ou mesmo a aldeia na totalidade, para a requalificar e dedicar ao turismo. José explica que isso nunca avançou por dificuldades burocráticas ligadas à propriedade dos imóveis, que não estão registados ou pertencem a vários herdeiros. “As pessoas passavam aqui e perguntavam se queria vender alguma casa, mas eu e os meus irmãos ainda não fizemos as partilhas, mesmo que quisesse vender não podia”, diz. O mesmo se passa com os antigos vizinhos. O único habitante de Casas da Serra garante que não se importava de ter a companhia de turistas.

Também o presidente da Junta de Freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo, que integra a localidade de Casas da Serra, diz que “há gente interessada em comprar e investir ali, para recuperar uma casa e passar umas férias lá, porque tem condições, com estrada até à aldeia e é um sítio agradável e com vistas muito bonitas”.

APOIO

O autarca, Paulo Pereira, conta que costumava “incentivar” José a ficar na aldeia. “Em brincadeira dizia-lhe que não devia sair dali, porque se fosse embora tínhamos esta aldeia deserta”, disse à VTM. Contudo, compreende a intenção de o habitante se mudar. “Em Cerdedo sempre tem mais companhia, vê mais pessoas”, reconhece.

Agora com água e luz em casa, o habitante recebe ainda alimentação diária, desde que teve o problema de saúde há dois anos, inicialmente contando com o apoio da junta de freguesia e município. As refeições são preparadas no Centro Social de Atilhó, que integra a Santa Casa da Misericórdia de Boticas, e são distribuídas na freguesia por uma funcionária da junta. “Nós, na junta, apoiamo-lo em tudo o que podemos”, tendo mesmo cedido um terreno para a construção de uma habitação em Cerdedo.

Apesar de a freguesia ter, no total, mais de 600 habitantes, distribuídos por sete aldeias, esta será a segunda localidade a ficar completamente desertificada, depois de Covêlo do Monte, sem habitantes há mais de 50 anos. Esta aldeia está mesmo à venda para criação de um projeto turístico. Também na freguesia, na aldeia de Virtelo vivem apenas dois casais. “Hoje, as nossas aldeias têm esse problema da desertificação. Mas não é só aqui, é por todo o lado”, lamenta o presidente.
Sinais dos tempos que levam a maioria da população a escolher centros urbanos para se fixar.[/block]


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