O Natal é tempo de amizade e convívio entre a família, onde a partilha, a comunidade e a simplicidade fazem parte desta época festiva.
Nas cidades, vilas e aldeias transmontanas ainda se mantêm várias tradições vivas, como a ida à Missa do Galo, as cartas ao Menino Jesus, o sapatinho nas chaminés, que as crianças colocavam à espera das prendas.
Em casa de Cecília Azevedo, de 76 anos, na aldeia de Soutelo, no concelho de Chaves, o Natal era uma festa da família, numa casa onde havia muitas crianças. “A minha mãe teve 10 filhos, mas só conheci seis. Quatro morreram quando ainda eram pequenos devido a meningites”.
Mesmo assim, na casa dos pais de Cecília havia sempre prendas, sobretudo para a filha mais nova. “Eu fui uma sortuda, porque era a filha mais nova e sempre tive presentes, as outras não tinham. Eu achava normal e na noite de consoada não me esquecia de colocar o sapatinho na chaminé. Pela manhã do dia 25 lá estava o meu presente, que eu acreditava ser mesmo do Menino Jesus”.
As prendas eram luvas, meias, camisolas e chocolates. Mais tarde, uma das irmãs contou-lhe que as prendas não eram do Menino Jesus, mas sim da mãe. “Fiquei assim parada e triste, porque acreditava mesmo que era ele que me trazia as prendas. A partir daí já não tive mais prendas na chaminé”, conta Cecília Azevedo.
“Antigamente, eu e as minhas irmãs andávamos o dia todo no monte para fazer o presépio”
O Natal era vivido de forma muito diferente dos dias de hoje. “Agora, no final de setembro, já há decorações alusivas ao Natal. Não faz sentido. Antigamente, era só no dia 24 de dezembro. Íamos buscar um pinheiro à mata, trazíamos o musgo, colocávamos o algodão, que parecia a neve, e fazíamos o presépio com as imagens dos animais, à volta do Menino Jesus, do São José e de Nossa Senhora. Eu e as minhas irmãs andávamos o dia todo no monte para fazer o presépio”.
À noite juntavam-se para a ceia de Natal. “Eramos só os de casa, mas não faltava o polvo, bacalhau com batatas cozidas e couve penca. Sempre me lembro de comer polvo cozido com alho e salsa ou então era arroz de polvo”. Para sobremesas havia aletria, rabanadas, filhoses de abóbora. “A minha mãe estava o dia todo na cozinha a fazer a comida”.
Ao serão, as crianças jogavam ao pinhão. “umas perdiam outras ganhavam, e ficávamos acordados até mais tarde. Era assim que brincávamos”.
Durante a noite, os rapazes da aldeia pegavam nos carros de bois e iam arranjar lenha para fazer a fogueira no largo da aldeia.
Manuel Carvalho, marido de Cecília, conta que “era um grupo que se juntava à noite para arranjar lenha, muitas vezes era roubada de matas. De manhã, todos se juntavam no largo da aldeia à volta da fogueira para celebrar o Natal”.
A festa de Natal começa ao meio-dia do dia 24 de dezembro, com o almoço onde se reúne a família mais próxima. “Comemos bacalhau e batatas cozidas ao almoço na minha casa. Ao jantar é a vez de comermos o polvo na casa da minha filha”.
No dia de Natal, ao almoço, nesta aldeia a tradição é comer peru. “Sinceramente eu nem sabia o que era a roupa velha, mas um dia fui ter com uns amigos em Pedras Salgadas, que me explicaram o que era. Aqui não há essa tradição, porque tudo aquilo que sobrava, nós dávamos aos animais”.
Hoje, os tempos são outros, mas o espírito de Natal continua a reinar nas casas dos flavienses, onde a união da família é o mais valorizado.







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