Em entrevista à Agência Ecclesia, revelou que o padre tem de ser um “homem de relações” e assumir o “ministério da síntese”.
O Evangelho diz “nem só de pão vive o homem e hoje temos de atualizar isso e dizer ‘nem só de algoritmos vive o homem”. Os algoritmos “são bons e necessários para encontrar meios ou soluções de ordem tecnológica e até financeira, mas a dimensão humana é insubstituível”, afirmou.
Nas suas bodas de ouro sacerdotais, D. António Marto lembrou que se vive “de forma inédita a globalização”, uma constante “inovação tecnológica” que “não é só de técnica”, gera “uma cultura que abre muitas possibilidades, mas traz grandes riscos”. “Hoje, espalha-se uma mentalidade de pôr a confiança numa espécie de omnipotência nos meios tecnológicos digitais como dessem solução a tudo”, acrescentou.
Para D. António Marto, a Igreja e o padre hoje têm de seguir as indicações do Papa Francisco e definir-se pela proximidade, o cuidado da casa comum e a fraternidade.
Na entrevista, onde partilha o perfil do padre ao longo dos 50 anos de sacerdócio, desde a ocasião em que decidiu entrar no seminário, aos 10 anos, contrariando a vontade do pai que o queria militar e da mãe que via no filho um advogado, o bispo disse que um “padre tem de ser um homem de relações”, cuidando tanto a “relação com Deus”, porque “as pessoas gostam de um padre muito próximo mas gostam de saber que é um homem de fé e que é diferente”, e também relações com todas as pessoas, que sejam expressão de “acolhimento, atenção a cada um, de escuta, de partilha das alegrias e sofrimentos”.
“Um padre pode saber muito, ter grande formação em teologia, filosofia, sociologia, saber explicar muito bem as coisas, fazer grandes sermões, mas se não tem a proximidade com o seu povo, com as pessoas, falta-lhe algo, não serve! E o que é que lhe falta? Falta-lhe a língua, falta-lhe o poder de falar? Não, falta-lhe o coração, a humanidade”.
PERCURSO
Ordenado sacerdote em 1971, em Roma, pelo cardeal D. António Ribeiro, D. António Marto, natural de Chaves, recorda que o pai também foi seu formador quando lhe disse, na altura da ordenação: “Não te suba o poder à cabeça e trata sempre bem os pobres e os humildes”.
“Eu isso nunca esqueci na vida. Foi uma marca que recordo sempre, praticamente todos os dias, sem grande esforço. Assim, o meu pai também foi educador e formador de um pastor”, reconheceu com emoção.
Após a ordenação sacerdotal, D. António Marto continuou os estudos teológicos, foi depois 24 anos professor de Teologia e formador do Seminário Maior do Porto, até ser nomeado bispo, primeiro como auxiliar de Braga, no ano 2000, depois para Viseu, em 2004, e para a Diocese de Leiria-Fátima, em 2006, e afirma que gosta de “andar neste mundo”, sem ter “medo da morte”. “Não sei quantos anos mais viverei, mas farei o que puder ao serviço da Igreja e do mundo”, concluiu.



