Sábado, 20 de Julho de 2024
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Educação especial: Um ritmo de aprendizagem marcado pelos próprios alunos

Ao entrar num pavilhão da Escola Básica e Secundária de Vila Pouca de Aguiar ouve-se alguém a enumerar nomes de ingredientes como farinha, baunilha, sal e fermento. São alunos que estão a ter aula de culinária com a professora Carla, no Centro de Apoio à Aprendizagem (CAA). Quando entramos na sala, já estão a preparar as misturas para a fase final. O objetivo é terem “waffles” para comer e partilhar.

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Ao contrário do que se possa pensar, estes alunos não têm necessariamente alguma deficiência. Alguns deles apenas têm dificuldades em socializar ou até em realizar tarefas mais práticas. Aliás, estas crianças estão inseridas numa turma regular e participam normalmente nas respetivas visitas de estudo. O que acontece é que cada uma delas tem um plano individual de acordo com as suas capacidades e isso inclui aulas neste CAA. “Há alunos que podem ter vintes e não saber estar e socializar com outras pessoas”, diz a professora Augusta. Então, ao conjugar o ensino regular com estas aulas, faz com que estas crianças se possam desenvolver em todos os aspetos.

Por exemplo, ao fazer uma receita, além de porem à prova o seu português, também vão treinando a matemática e o cálculo, ao lidar com as quantidades e/ou temperaturas, ao mesmo tempo que aprendem a prática e a dinâmica de cozinha entre todos. Romeu tem 12 anos e diz que estas atividades o fazem “crescer e desenvolver”, e garante que já evoluiu “muito”. Um outro rapaz que está na aula, explica que estas competências são importantes para o mundo do trabalho.

Tudo aqui é pensado com base no perfil de cada aluno. Desde logo, as atividades. Por exemplo, há um grupo de alunos, que já são mais velhos e autónomos, e que não precisam de fazer algumas atividades que um grupo diferente, composto, por exemplo, por uma menina do 1º ano, que tem síndrome de Down, e por Camila, cujo diagnóstico ainda não é certo. “São atividades que são direcionadas para elas, mas que os outros meninos também podem fazer, se quiserem”, explica a professora Augusta.

A sala principal está pensada para agradar a qualquer aluno. Tem uma mesa onde estudam os mais diversos temas, em frente a um quadro em que, desta vez, está escrito: “Como é que os daltónicos sabem o estado do mar?”, com o objetivo de os ensinar a distinguir os vários sinais que podem encontrar quando forem à praia. Tem também vários computadores (um deles, entretanto ocupado por Camila, que adora estar ali), zonas de jogos (onde Matias e Diogo iniciaram uma partida de xadrez), uma televisão, uma piscina de bolas e, ao fundo, todo e qualquer material que precisem. Aqui, os alunos têm, entre outras coisas, expressão plástica, informática, cálculo, atividades de leitura e escrita.

Os alunos que têm estas aulas participam ainda em vários projetos, como o Desporto Escolar Adaptado (natação, xadrez, boccia e modalidades desportivas de canoagem e surf), as aulas de “Mãos na Massa”, como aquela a que acabamos de assistir, aulas de Ciências Experimentais e ainda a horta pedagógica.

E é exatamente à horta que vão a seguir. Lá têm as mais diversas coisas plantadas, desde feijão, batatas, morangos, ervas aromáticas, girassóis, milho, tomate e, numa estufa criada por eles, têm ainda meloas, manjericão e abacates. Segundo a professora Augusta, os alunos são responsáveis por tudo e há sempre uma grande tentativa em deixar que eles sejam autónomos.

São sete os professores de Educação Especial no Agrupamento (sendo que dois estão em Pedras Salgadas) que já são familiares para estes alunos e que muitos estão lá essencialmente pelo gosto e carinho que têm por estas crianças. Estes docentes são diariamente apoiados por auxiliares nas mais variadas tarefas, como a alimentação ou higiene pessoal dos alunos que não têm um grande nível de autonomia. É toda esta equipa que faz atividades de pedagogia com eles que abrangem temas do quotidiano como, por exemplo, ir às finanças, aos correios, ao restaurante e ao café. Aprendem também a lidar com a internet, como a comprar bilhetes de autocarro e mexem frequentemente com ficheiros de Excel. São estas aulas que lhes dão as competências necessárias para que fiquem aptos para a vida adulta que se segue.

INCLUSÃO

No contexto da Lei 54/2018, a educação inclusiva está “montada” em pirâmide. Na base, estão as medidas universais, onde, afirma a professora Augusta, “podemos estar todos nós”, depois as seletivas como o apoio tutorial e psicopedagógico e, por fim, as adicionais, onde se insere então este CAA e o Centro de Recursos para a Inclusão, em que profissionais acompanham os alunos na área da psicologia e psicomotricidade. Além disso, há também terapias, em protocolo com a Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, como a assistida por cavalos (no centro Hípico de Pedras Salgadas) e fisioterapia.

Por fim, e, inserido nas medidas adicionas, existe o PIT (Plano Individual de Transição) em que, quando estes alunos chegam aos 15 anos, e sempre que tenham autonomia para tal, os professores criam um plano em que cada um deles é direcionado para uma atividade profissional. A professora Augusta dá o exemplo do Diogo que vai para uma oficina de motas e bicicletas, onde, explica a docente, deverá “aprender regras de funcionamento de um emprego como a cumprir os horários, a lidar com pessoas fora da escola e, na medida do possível, aprender competências na área para o futuro”.


[Todos os nomes usados são fictícios para proteger as crianças]

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