“Uma casa onde não houvesse o jogo do Pinhão no Natal não era a mesma coisa”, diz Augusto Alves. Também conhecido como rapa, as pessoas precisavam de uma espécie de pião quadrado, com quatro lados, e pinhões, que não eram comprados já sem casca, mas extraídos da própria pinha, que também fazia parte da distração.
Em cada face do pião havia uma letra (R, P, T e D) e cada uma ditava uma ação. Numa mesa estavam os pinhões, em vários montinhos que cada um tinha descascado. Se calhasse o “R” rapava tudo o que lá estava, se saísse o “T” tirava-se um pinhão de cada montinho, se fosse o “D” deixava tudo como estava e o “P” indicava que o jogador tinha de pôr pinhões de volta na mesa. “Era um jogo de família. Era assim que se passava o tempo, à espera da meia-noite para que passasse o Pai Natal”, conta. Outra modalidade era adivinhar quantos pinhões a outra pessoa escondia na mão. Quem acertasse no número exato ficava com todos os pinhões.
TRADIÇÃO À MESA
Se o Natal representa família, tradições e união, nada melhor do que congregar tudo à mesa. E se o bacalhau e o polvo são parte do menu habitual, em Chaves também não podem faltar as rabas e as cherovias a acompanhar a couve e as batatas.
Jesuína Fernandes tem uma loja de legumes há 43 anos e nesta época vende rabas, um tubérculo branco, e as cherovias, que substituem as cenouras. “É o tradicional de cá, para comer com o bacalhau e com as couves”, explica. Os produtos são típicos desta época do ano. “Só há agora e nós compramos tudo ao lavrador daqui. Noutros estabelecimentos maiores as coisas vêm de fora. Aqui é mais caseiro”, daí que, para o Natal, já tenha muitas pessoas a procurar estes produtos. “As couves é mais perto do dia de consoada, mas já há muita gente que leva para casa rabas e cherovias, até para mandar para fora”, para garantir que a tradição se mantém. “Há muitas pessoas que nem conhecem, ainda hoje duas senhoras levaram, mas para provar, porque não sabiam o que era”.
Na hora das sobremesas, o lugar de destaque é para o bolo rei ou bolo escangalhado, mas não faltam os sonhos, as rabanadas e as fritas de jerimu.

Cláudia Santos, proprietária da confeitaria Bom Gosto, conta que é habitual ter à venda esta espécie de filhoses feitas com abóbora, na altura do Natal. “Leva leite, farinha, ovos, açúcar e a abóbora ou jerimu, que é cozida previamente. É frita e depois polvilhada com açúcar e canela, é deliciosa, especialmente quente”, garante. Este tipo de filhós é “mais mole e não endurece tanto”, como as que não são feitas com abóbora.
Além desta iguaria típica, as pessoas fazem encomendas de bolo rei, bolo de chila, tarte e doces variados, assim como sonhos e rabanadas e até o tradicional pastel de Chaves. “No Natal também sai bastante, porque mesmo que tenham doces e outras coisas, o pastel tem de estar na mesa”, sublinha. O ano passado fez “mais de dois mil bolos-rei e este ano espero superar esse número”.
Algumas pessoas fazem as encomendas antecipadamente, outras vão procurando a pastelaria à medida da necessidade, mas “cada vez mais pessoas dizem que preferem comprar do que fazer em casa”, quer pelo trabalho, quer pelo custo total.
A mesma ideia é partilhada pelos clientes de António Trinta, da pastelaria Mister Doce. “As pessoas já compram muito aqui, até porque as nossas rabanadas têm muita qualidade, parecem caseiras. Para fazer em casa, quando vamos comprar tudo, é mais caro do que aqui e dá mais trabalho”. No estabelecimento vende os doces tradicionais do Natal, mas “o mais procurado é o bolo escangalhado”, só com frutos secos e sem frutas cristalizadas.
Trabalha quase exclusivamente por encomenda, mas diz que “as pessoas estão a conter-se ainda e não sabem, por causa do aumento dos preços, o que vão comprar” e nota que os clientes fazem contas, comparam preços e alguns levam menos quantidade, não estando as encomendas, para já, ao mesmo nível do ano passado.



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