Mais uma morte de Deus

Desde a Modernidade que se tem vindo a decretar, sem sucesso, a morte de Deus. Segundo muitos pensadores e algumas ideologias, a força transformadora do mundo é o homem e a sua vontade poderosa e determinada.

Deus não passa de uma mera criação humana. A verdade é que Deus ainda anda por aí e está bem vivo, revelando uma capacidade surpreendente de resistir às intempéries provocadas pelo orgulho e pela inteligência humana e até pelo delírio humano. 

Por estes dias, o escritor Dan Brown afirmou que Deus não vai conseguir sobreviver à ciência e que o seu fim está para breve. Na sua opinião, os avanços da tecnologia vão ser demolidores, de tal forma que «nas próximas décadas a nossa espécie vai conectar-se a um nível a que não estamos habituados. Nessa altura vamos encontrar as nossas experiências espirituais nessas interconexões. É isso que vai passar a ser o nosso divino. A nossa necessidade como espécie do divino ou de um Deus exterior que nos julga ou a quem colocamos questões ou pedimos ajuda, essa necessidade, vai diminuir ou mesmo desaparecer.»

Sendo exatos, não diz que Deus desaparecerá, mas que a nossa necessidade de Deus, tal como o concebemos, desaparecerá. No fundo, até poderá existir um Deus, mas não precisaremos d’Ele para nada. A ver vamos. O que é certo é que antes de pôr um livro à venda, o escritor cria polémica e lança algumas afirmações bombásticas, engodo já mais do que batido, para vender os livros, e, pelos vistos, não lhe faltam leitores dispostos a ler os best-sellers cheios de fantasias, invenções, balelas, suposições, futilidades e boatos históricos, destituídos de fundamentação e comprovação histórica consistente. 

Certamente que Deus subsistirá para lá destes devaneios dos profetas contemporâneos. Talvez aqui se aplique o que Mark Twain retribuiu à notícia sobre a sua morte, quando ele estava vivo: «São notícias manifestamente exageradas». Proclamar que o fim de Deus ou da sua necessidade estão próximos, já anunciado várias vezes, é manifestamente exagerado. Duvido que a nossa necessidade de Deus seja substituída pela tecnologia e que o mero horizontalismo intercomunicativo, por muito sofisticado que seja, nos preencha definitivamente como seres humanos. O que se vê crescer é a solidão, a desumanidade e o vazio das pessoas. 

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