Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Na bruma do tempo

Quantas vezes, na bruma da memória se vislumbram na emoção dos olhares, os velhos que dançavam nas festas ao toque de uma qualquer gaita ou instrumento filarmónico… 

Nas lareiras e nas noites de luar, rezava-se de cor poemas inapagáveis dos nossos escritores populares que nos maravilhavam. Sonetos onde nos curvávamos meditativos, tristes e sonhadores…

No caminhar sem rumo e sem pressa cai dentro de mim uma névoa de imagens desfilando na bruma do tempo. Ao longe, ressoam as badaladas da campainha do sacristão Zé da Laura a anunciar a chegada de Cristo Salvador…o homem de estatura considerável toca-as freneticamente como se o Menino feito Homem ali estivesse e o aplaudisse. Logo atrás vem o padre bonacheirão com um sorriso triunfador como se Jesus estivesse bem dentro do seu coração… proeminente de barriga porque se sente feliz…

O sacristão procura passar-lhe à frente com o grande crucifixo que vai ser beijado por todos os paroquianos da aldeia. E o prior declama ladainhas em latim que ninguém entende. Depois todos a beijar o Senhor, primeiro os mais velhos. Se em casa há um paralítico ou demente então esses são os últimos a receberem e beijarem o Crucifixo por mais tempo recebendo do Cura palavras mais generosas ungidas de compaixão, enquanto a baba do doente vai deslizando em escorrências cadenciadas…

E o cortejo lá vai de casa em casa. E na sacola do sacristão vão os folares, as amêndoas e outras guloseimas, preito da amizade inteira de uma freguesia ao Padre que lhes dá a vida do espírito e a promessa da salvação eterna.

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Cada família vai formando no cortejo da vida pascal, reunindo-se na última casa. Aí, todas se juntam numa alegria coletiva, triunfal, como expressão sincera de uma felicidade pertença de todos. Na luz que nos conduz e alumia, os anos passam velozmente e as saudades são imensas à medida que aumentam os cabelos brancos ou a falta deles se faz notar… 

Há pessoas e coisas que vão desfilando diante de nós, umas com ternura, outras passando fechadas em imagens que baralham o cérebro e derrubam os pensamentos…

Há pessoas que caem em cima de nós porque já morreram e nos dão alento em caminharmos em frente. Algumas são dignas duma saudade que dói, que nos faz interromper o caminho. Outras estão vivas e vivem felizes, dignas do nosso registo de memória quando não estão presentes.

Nos dias das festas, as manhãs despertam mais cedo e os ares são ornamentados de um manto primaveril e de um cheiro forte a pão cozido. A serra do Marão deixa definitivamente o seu negro de inverno. E os afilhados visitam os padrinhos na Páscoa onde vão receber os folares recheados pelo afamado bolo de ovos ou fina regueifa. E nesse dia, tudo se apresta para a missa precedida de uma procissão esplendorosa e fulgurante de fé e repouso espiritual. E os namorados recolhem-se, escondendo-se na procura de um cruzamento de beijos ou de olhar meigo e terno. E nos soalheiros juntam-se as velhas, predizendo o futuro das colheitas para que hão de fazer-se as sementeiras, ou murmurando da vida alheia… E o povo acredita sempre no dia seguinte…

Estou certo de que melhor do que ninguém, cada habitante deste pequeno reino se aperceberá dos vários aspetos das sucessões de imagens e símbolos de que somos sobejamente ricos. Na minha terra cada pessoa era uma espécie de rio de poemas que refletiam nos rostos a limpidez de carate. Quem ama o seu pequeno torrão identitário e se orgulha das suas raízes, não pretende mais nada do que servir os seus antepassados, lembrando-os naquilo que eles construíram na valorização do que hoje somos como pessoas de firmeza moral e dignidade sem mácula. Ah! Que felicidade poder lembrar quem nos ajudou a construir a elaboração da teia humana naquilo que ela é grandiosa e única. 

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