Nas lareiras e nas noites de luar, rezava-se de cor poemas inapagáveis dos nossos escritores populares que nos maravilhavam. Sonetos onde nos curvávamos meditativos, tristes e sonhadores…
No caminhar sem rumo e sem pressa cai dentro de mim uma névoa de imagens desfilando na bruma do tempo. Ao longe, ressoam as badaladas da campainha do sacristão Zé da Laura a anunciar a chegada de Cristo Salvador…o homem de estatura considerável toca-as freneticamente como se o Menino feito Homem ali estivesse e o aplaudisse. Logo atrás vem o padre bonacheirão com um sorriso triunfador como se Jesus estivesse bem dentro do seu coração… proeminente de barriga porque se sente feliz…
O sacristão procura passar-lhe à frente com o grande crucifixo que vai ser beijado por todos os paroquianos da aldeia. E o prior declama ladainhas em latim que ninguém entende. Depois todos a beijar o Senhor, primeiro os mais velhos. Se em casa há um paralítico ou demente então esses são os últimos a receberem e beijarem o Crucifixo por mais tempo recebendo do Cura palavras mais generosas ungidas de compaixão, enquanto a baba do doente vai deslizando em escorrências cadenciadas…
E o cortejo lá vai de casa em casa. E na sacola do sacristão vão os folares, as amêndoas e outras guloseimas, preito da amizade inteira de uma freguesia ao Padre que lhes dá a vida do espírito e a promessa da salvação eterna.
Cada família vai formando no cortejo da vida pascal, reunindo-se na última casa. Aí, todas se juntam numa alegria coletiva, triunfal, como expressão sincera de uma felicidade pertença de todos. Na luz que nos conduz e alumia, os anos passam velozmente e as saudades são imensas à medida que aumentam os cabelos brancos ou a falta deles se faz notar…
Há pessoas e coisas que vão desfilando diante de nós, umas com ternura, outras passando fechadas em imagens que baralham o cérebro e derrubam os pensamentos…
Há pessoas que caem em cima de nós porque já morreram e nos dão alento em caminharmos em frente. Algumas são dignas duma saudade que dói, que nos faz interromper o caminho. Outras estão vivas e vivem felizes, dignas do nosso registo de memória quando não estão presentes.
Nos dias das festas, as manhãs despertam mais cedo e os ares são ornamentados de um manto primaveril e de um cheiro forte a pão cozido. A serra do Marão deixa definitivamente o seu negro de inverno. E os afilhados visitam os padrinhos na Páscoa onde vão receber os folares recheados pelo afamado bolo de ovos ou fina regueifa. E nesse dia, tudo se apresta para a missa precedida de uma procissão esplendorosa e fulgurante de fé e repouso espiritual. E os namorados recolhem-se, escondendo-se na procura de um cruzamento de beijos ou de olhar meigo e terno. E nos soalheiros juntam-se as velhas, predizendo o futuro das colheitas para que hão de fazer-se as sementeiras, ou murmurando da vida alheia… E o povo acredita sempre no dia seguinte…
Estou certo de que melhor do que ninguém, cada habitante deste pequeno reino se aperceberá dos vários aspetos das sucessões de imagens e símbolos de que somos sobejamente ricos. Na minha terra cada pessoa era uma espécie de rio de poemas que refletiam nos rostos a limpidez de carate. Quem ama o seu pequeno torrão identitário e se orgulha das suas raízes, não pretende mais nada do que servir os seus antepassados, lembrando-os naquilo que eles construíram na valorização do que hoje somos como pessoas de firmeza moral e dignidade sem mácula. Ah! Que felicidade poder lembrar quem nos ajudou a construir a elaboração da teia humana naquilo que ela é grandiosa e única.




