Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022
Victor Pereira
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Não julgar não é ser acrítico ou permitir tudo

Vermos o mal e acharmos que está mesmo mal e não confrontarmos os outros com isso, em nome do não julgar, não é uma atitude saudável para a vida de todos e não é contribuir para o bem dos outros e da sociedade”

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Facilmente se ouve hoje aplicar, em muitas e variadas situações, a fórmula ninguém deve julgar ninguém ou quem não tem pecados atire a primeira pedra. Muito bem. No entanto, no fim da cena evangélica, Jesus não deixa tudo na mesma e diz à mulher: ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Vai e não tornes a pecar. Não deixou de fazer ver à mulher que aquilo que andava a fazer estava errado e era pecado e pede-lhe mudança de vida. Não julgar não é ser acrítico ou permitir tudo.

Esta ideia de se fazer de Jesus um bonacheirão e um observador acrítico, que só apelou ao acolhimento e respeito por todos, sem um olhar crítico sobre a vida pessoal e social, não condiz com Jesus. Ele foi profundamente crítico da vida social e religiosa, de muitos comportamentos e atitudes e de muitos abusos e injustiças do seu tempo, e diante do pecado, ou seja, daquilo que estava errado, reclamou mudança. E pediu aos seus discípulos para fazerem correção fraterna, não devemos apenas ser espectadores da vida e dos outros, mas contribuir para o seu aperfeiçoamento e para a sua humanização e santificação.

A nossa primeira atitude deve ser acolher e respeitar os outros, com a sua maneira de ser e de pensar, com a sua identidade, diferença e cultura próprias, com o seu corpo e a sua originalidade, com as suas virtudes e fragilidades, com os seus feitos e fracassos. Mas não podemos deixar de ter sempre um olhar crítico, no bom sentido da palavra, sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre a vida e sobre o mundo, e de nos perguntarmos sobre o que é mais digno ou indigno, mais correto e menos correto, mais certo ou menos certo, mais humano ou menos humano. O julgamento construtivo faz parte da vida. O não julgar também não pode ser carta branca para a libertinagem, para cada um fazer o que quer e para se permitir o mal, excessos, desleixos, errâncias, atropelos, vícios, abusos, aberrações e loucuras. Na verdade, o que vejo, muitas vezes, em muitas situações em que se reclama o não julgamento, é indiferença, o querer que tudo continue sempre na mesma e que ninguém seja perturbado na sua vida, mesmo que esteja a viver de forma abusiva ou errada. Um não julgar para sermos tolerados e nos ser permitido fazer tudo o que nos apetece.

Vermos o mal e acharmos que está mesmo mal e não confrontarmos os outros com isso, em nome do não julgar, não é uma atitude saudável para a vida de todos e não é contribuir para o bem dos outros e da sociedade.

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