Sábado, 3 de Dezembro de 2022
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Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O nazismo e a arquitetura na França ocupada

Há tempos, numa visita a uma superfície comercial, ao passar pelo setor livreiro, reparei num livro com o sugestivo título: O Arquiteto de Paris, não resistindo a folheá-lo aleatoriamente e ao verificar o quão interessante era, decidi adquiri-lo.

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O seu autor, Charles Belfoure, arquiteto de profissão, descreve de forma primorosa a vida politica, económica e social existente na cidade de Paris, durante a ocupação alemã, na 2.ª Guerra Mundial, destacando a imaginação criativa e voluntariosa de um arquiteto, ao conceber esconderijos para salvar os judeus da sanha persecutória nazi. Embora façam parte, da sua narrativa, vários atores o enredo anda à volta, essencialmente, de três personagens, cujo relacionamento, entre si, acaba por gerar sentimentos de empatia e cordialidade, que se vai refletir no futuro, apesar de um dos intervenientes ser o alemão Dieter Herzog, major da Wehrmacht, engenheiro de estruturas, cuja principal função é a de superintender a construção de fábricas para a produção e fornecimento de equipamento à máquina de guerra alemã. Lucien Bernard e Auguste Manet são os outros dois elementos, que integram o referido trio. O primeiro é arquiteto e o segundo um abastado industrial parisiense, que a par dos negócios que vai mantendo com as forças de ocupação, mas, impulsionado pelos seus sentimentos cristãos, preocupa-se, também, com o destino dos judeus, tentando com o apoio de Lucien Bernard e das suas qualidades de arquiteto, de reconhecido mérito, conceber esconderijos, em imóveis à sua guarda ou de sua propriedade, de molde a escaparem à perseguição nazi.

As relações humanas entre Bernard e Herzog, cedo começam a frutificar dado o sentimento comum pela arquitetura. Temas como a Escola de Arquitetura da Bauhaus, de Walter Gropius, que o oficial alemão frequentou antes de enveredar pela engenharia, e a abordagem sobre a incursão, malsucedida, de Hitler pela arquitetura, faziam parte das conversas que ambos mantinham, informalmente. Os projetos de novas fábricas que Lucien, contratualizado por Manet, estava incumbido de apresentar, eram invariavelmente visionados por Dieter Herzog, cuja sensibilidade arquitetónica e artística suscitava, cada vez mais, a admiração do seu interlocutor.

Este livro revela, pois, com abundância de pormenores, ao longo dos 66 capítulos que o constituem, o papel desempenhado pela arquitetura, num dos períodos trágicos da França ocupada, terminando com a fuga, para a Suíça, de um dos protagonistas, Lucien Bernard, acompanhado pela sua amante, Bette, e por três jovens judeus, Pierre, Émile e Carole, protegidos de ambos, com a complacência e proteção de Dieter Herzog.
É caso para dizer que o gosto pela arquitetura às vezes opera “milagres”.

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