VTM – O seu percurso desportivo começou em Vila Real e chegou à primeira divisão nacional…
RV – Sim. A minha formação foi toda aqui, iniciados, juvenis e juniores. Estive três épocas como sénior no Sport Clube de Vila Real e depois saí para a Associação Desportiva da Guarda, onde estive um ano, na segunda divisão. Daí fui para o Vitória de Guimarães, durante quatro anos, depois joguei seis anos no Marítimo, na Madeira, onde acabei o meu trajecto como jogador.
Vim para Vila Real, matriculei-me na UTAD, onde frequentei o primeiro ano de Educação Física, mas depois regressei à Madeira, onde comecei a minha carreira como treinador e onde continuei a estudar. Estive três anos e meio como treinador-adjunto na equipa principal do Marítimo. Cheguei a ser treinador principal por três meses.
Fui treinador de uma equipa satélite do Marítimo, que era o Camacha, que disputava a segunda divisão B, e onde estive um ano e meio.
Depois aceitei o convite para trabalhar como treinador-adjunto do Paulo Autuori, mas estive com ele durante pouco tempo, porque correu mal. Embora tivéssemos um contrato de três anos com o Vitória de Guimarães, só lá estivemos quatro meses.
Entrei a meio da época na Associação Desportiva de Bragança, onde estive seis meses. Daí fui para ilha Terceira, nos Açores, para treinar o Lusitânia, da segunda divisão. Mais tarde fui para a divisão de honra da Madeira, onde treinei o União da Madeira.
A partir daí fiz equipa com o Vítor Pontes e fui para o União de Leiria, como adjunto. Voltei para o Vitória de Guimarães, também com o Vítor Pontes, com quem fui ainda para o Portimonense. Passado um ano aceitei o desafio de treinar no estrangeiro, mais exactamente a selecção de sub-17 do Burkina Faso.
VTM- Como surgiu esse convite?
RV – Surgiu por intermédio do Paulo Duarte, que jogou comigo no Marítimo, depois foi meu jogador no União de Leiria, onde, acabou por trabalhar também como treinador, e que hoje é o seleccionador nacional da equipa sénior do Burkina Faso.
VTM – No final de Janeiro veio a grande alegria da glória no Campeonato Nacional Africano…
RV- Sim. Foi uma alegria imensa. Um feito enorme para um país que nunca tinha sido campeão, em qualquer modalidade, ainda por cima no desporto que eles gostam mais, que é o futebol. Foi um dia histórico para o Burkina Faso, e para mim!
VTM – Como é treinar uma equipa de futebol num país como o Burkina Faso?
RV- É um desafio constante porque há muitas limitações e carências, embora haja as condições mínimas para realizar um bom trabalho. Temos um campo relvado e um centro de estágio que não têm as melhores condições, mas os jogadores estão habituados. É o país deles, a realidade deles. Como convivem com essas carências diariamente, têm um poder de adaptação muito bom. Para mim, enquanto treinador, tenho as condições mínimas para fazer um bom trabalho.
VTM – E adaptação ao país foi fácil?
RV- Foi muito fácil porque quando eu fui já está lá viver, o Paulo Duarte já sabia os caminhos e os atalhos..
Aceitei o convite para partilhar a casa, por isso são seis treinadores portugueses na mesma casa. Três trabalham com o Paulo na selecção principal e eu levei o Pedro Lima, um treinador que conheci na UTAD, que chegou a treinar a equipa da Diogo Cão.
VTM – Quais as principais diferenças entre treinar uma equipa portuguesa e uma africana?
RV- As diferenças são enormes. A mais significativa é a desorganização. A África é um continente muito desorganizado, e temos que conviver diariamente com isso. Não adianta darmos directrizes, ideias e sugestões, porque eles dizem que sim mas acabam por não fazer nada. Ao nível do trabalho em si, com os jogadores, é muito bom porque são atletas que dão tudo que têm e mais alguma coisa. Estão muito disponíveis, não é preciso andar com factores de motivação extra para que eles sejam melhores, porque eles dão cem por cento em cada treino, em cada jogo.
VTM – E em relação ao público? Há muita adesão aos jogos?
RV- Eles são amantes da modalidade. Não enchem estádios, mas se calhar porque não há dinheiro para isso. Não é um problema de falta de interesse. Eles vivem o futebol a todo o momento e a toda a hora. Nos cafés, que têm televisão, vê-se muita gente fora da esplanada, em cima das motas, a ver os jogos. É uma forma de ver o futebol de graça, até porque muitos não têm electricidade em casa. Muitas vezes, vê-se, à noite, jovens a estudar junto de postos eléctricos… Para terem uma ideia o salário mínimo lá é de 40 ou 50 euros. É muito pouco. Os jogadores da selecção receberam neste campeonato perto de cinco mil euros, o que representa, para alguns, cinco anos de salários para os seus pais.
VTM – A vitória no campeonato fez com que seja agora a figura central do Burkina Faso…
RV- De facto foi um feito. Entramos muito mal no campeonato. Perdemos o primeiro jogo porque não nos habituamos muito bem à chuva. Em Burkina Faso não chove tanto, eles estão mais habituados a jogar em terreno seco. Mas ganhamos todos os jogos seguintes, e na final acabamos por vencer à equipa da casa (mesmo jogando com menos um jogador durante 30 minutos), o Ruanda, e perante 30 mil pessoas. Deu muito prazer ouvir o silêncio do estádio.
VTM – E em Julho é para ganhar no México?
RV- Queremos fazer uma boa participação no México. Ganhar vai ser difícil porque vão estar presentes as melhores equipas do Mundo. Vão estar países como o Brasil, a Argentina, a Alemanha, a Espanha, a França, e esperamos que Portugal também. Mas, vai ser muito difícil. É uma competição com outro cariz.
VTM – Como vê as dificuldades por que tem passado nos últimos anos o Sport Clube de Vila Real?
RV- Já me distanciei há muitos anos do Vila Real, mas vou acompanhando sempre. Não é agradável ver o Vila Real nas divisões secundárias. O clube merece outra divisão que não esta, sem menosprezo para outras cidades. Vila Real tinha que se estabilizar. Vejo com tristeza este sobe e desce.
VTM – Enquanto treinador tem algum sonho?
RV- Sim, o meu sonho é fazer uma boa carreira no estrangeiro. Não me cativa muito treinar em Portugal, a não ser na primeira liga. Não é fácil, mas espero conseguir boas prestações no estrangeiro. Estou numa fase bonita da minha carreira, espero ter mais uns anos neste nível.



