Sábado, 4 de Dezembro de 2021
©Agostinho Chaves

São Martinho e a sua identificação com o vinho

Uma extraordinária coincidência permitiu que São Martinho ficasse associado ao vinho. Não que São Martinho gostasse particularmente dele (disso nada se sabe), mas porque a celebração do seu dia foi fixada na época em que se abrem as vasilhas para testemunhar a qualidade do vinho vindimado, entretanto fermentado. É bem conhecido o clássico anexim: “Em dia de São Martinho vai à adega e prova o teu vinho”

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Um santo popular

Numa altura em que se realizam muitas atividades em prol do vinho, das castanhas e dos cogumelos (produções de novembro) em várias localidades de Trás-os-Montes e Alto Douro e em que as condições atmosféricas habitualmente melhoram (sem chuva e com sol) – é o reconhecido e inevitável “Verão de São Martinho” – eis que refulge a simpatia popular por este santo. Sim, santo popular, como Santo António, São João ou São Pedro, estes celebrados em tempo estival. E aqui surge a primeira grande diferença:

O significado do vinho

Na História do Cristianismo, há diversas referências ao vinho, desde logo em Jesus Cristo quando, reunido na última ceia com os seus apóstolos e pressagiando o fim da sua vida, lhes disse, erguendo um cálice com essa bebida: “Tomei e bebei todos, isto é o meu sangue que será derramado por vós”. Uma passagem de testemunho para aqueles que o substituiriam na Terra para levar longe a sua mensagem. E não é por acaso que o vinho está presente na Eucaristia, no altar e no cálice, tratado com o desvelo e o respeito que o Sangue de Cristo merece.

Mas os cristãos conhecem também o milagre das Bodas de Caná, no qual, por se ter acabado o vinho, surgiu a aflição de quem organizou o repasto, o que levou Maria a pedir a seu filho que houvesse por bem resolver essa falta. A pedido de Jesus, trouxeram vasilhas cheias de água que se transformou em vinho, “de melhor qualidade do que estava antes a ser bebido”, rezam os escritos da época.

Antes, refere a Bíblia, “o patriarca Noé, após o Dilúvio, plantou uma vinha, bebeu o vinho e embriagou-se. Foi a primeira vez que os efeitos da ingestão excessiva de vinho foram referidos na memória escrita.

“Num país essencialmente vinícola como Portugal, assinalar o dia de São Martinho com a abertura das pipas e dos tonéis, que contêm vinho novo, é um ato de cultura”

Nas civilizações panteístas da Grécia antiga e de Roma dos imperadores, havia deuses protetores do vinho e das vindimas. Foram Dionísio (deus grego) e Baco (deus romano). Baco não só protegia como também dominava e era senhor dos bebedores excessivos – os ébrios.

Mas o que tem a ver tudo isto com São Martinho, que se celebra a 11 de novembro? Em princípio, nada. Nem se sabe sequer se alguma vez o santo bebeu vinho, sendo provavelmente mais certo, como referiu o padre Moreira das Neves, que nunca o haja feito.
Mas, então, qual foi a vida do santo? Que razões o levaram ao altar? E porquê a sua ligação ao vinho?

São Martinho soldado e santo

No “Dicionário de Santos”, de Jorge Campos Tavares, há referência a dois santos com o nome de Martinho: São Martinho de Dume (nascido em princípios do século VI, na Panónia (Hungria); e São Martinho de Tours (nascido na mesma região magiar, mas antes daquele, em data provável de 317. O primeiro (que foi bispo de Braga) “dirigiu-se à Palestina em peregrinação quando encontrou enviados do rei suevo Charrico, em busca de relíquias do outro São Martinho – o de Tours – que, por sua intercessão, vira curado um seu filho.

Acompanhou-os da Gália ao reino suevo da Península Ibérica, desembarcando em Portucale. Aí iniciou a conversão dos suevos, tendo forte ação evangelizadora e episcopal entre eles. Morreu em 579 e foi sepultado na Catedral de Dume, de onde foi transladado para a Sé Catedral de Braga. É celebrado no dia 20 de março.

“Por motivos óbvios, resultantes do injusto preconceito que persegue o vinho a quem o aprecia, São Martinho é festejado não na rua nem nas praças ou largos de romarias e feirantes, mas na intimidade, em obediência a uma tradição que se afirmou no culto individual, no seio da família e no círculo de amigos, ao contrário dos três “Santos Populares”, cujas festas extravasam esse domínio e que se pautam por ritos e costumes ao ar livre e no folguedo coletivo”

José Estevão in “Diário de Notícias”-novembro de 1984

 

Quanto ao outro São Martinho, cujo dia que lhe é dedicado é o 11 de novembro (“Dia de São Martinho”) foi educado em Pavia. Nasceu cerca do ano 317. Foi soldado, fez-se batizar em Roma e começou uma carreira eclesiástica ao lado do bispo de Poitiers, que viria a ser Santo Hilário. Eleito bispo de Tours, a sua ação foi enorme, em conversões e criação de paróquias, ainda que optando por uma vida recatada e monástica. São Martinho veio a ser o primeiro santo não mártir elevado aos altares no Ocidente. Morreu em 397. Foi considerado “patrono de todo o mundo”, tendo em conta ter sido “o mais popular de todos os santos”.

A lenda da capa de São Martinho

Uma ação de amor pelo próximo circundou-o de uma auréola universal que lhe valeu tanta e tal popularidade. A iconografia de São Martinho ora o apresenta vestido de soldado, como legionário romano, a pé ou a cavalo; ou como bispo, com mitra e báculo. Aparece numerosas vezes no episódio em que terá partilhado a sua capa com um mendigo cheio de frio.

Segundo a lenda, São Martinho de Tours, ainda catecúmeno, cavalgando por uma manhã fria de inverno, viu um mendigo quase nu a tiritar.

“Sem mais ter que lhe dar, cortou com a espada metade da sua capa e deu-a ao pobre como agasalho. Nesse dia cinzento de novembro, tudo estava gelado. A brisa soprava agreste. No entanto, depois de ceder metade da sua capa ao mendigo, sentiu-se mais aquecido. O céu tornou-se azul, o ar ficou mais quente, a terra branda e o sol brilhou como nos seus melhores dias e até nos arbustos dos jardins abriram coroas de flores. A caridade floriu mais no coração dos homens e, por milagre, na natureza. Desde esse dia, para comemorar a lembrança, esta época do ano traz sempre um pouco de bom tempo: é o Verão de São Martinho”
in “Comércio do Porto, 11 de novembro de 1997”

Notável pela sua luta contra o paganismo e irradiação do Evangelho, tornou-se um santo muito popular pelo que começaram a celebrar-se festas em sua honra. Os costumes pagãos, o espírito folião dos celtas, o mês de novembro e o país vinhateiro em que viveu imprimiram às festas dedicadas a São Martinho (de Tours) a folia, o vinho novo e os produtos caraterísticos de cada região ou país colhidos nesta época. Em Portugal, as castanhas. E os cogumelos. Dessa forma, para uma camada mais profana da população, São Martinho tornou-se o ídolo dos pagodes e das bodegas.

Outra lenda, em São Martinho de Bornes

No município de Vila Pouca de Aguiar, uma das suas freguesias/paróquias tem como orago São Martinho de Tours. É a de Bornes de Aguiar. Como tal, existe numa plataforma altaneira de onde se divisa uma bela paisagem sobre o vale norte do concelho (onde se inclui a vila termal de Pedras Salgadas) a igreja matriz de São Martinho, atrás da qual há uma capela originária de tempo ainda anterior à nacionalidade portuguesa dedicada a São Geraldo (arcebispo de Braga que terá batizado o rei Afonso Henriques). Sobre este se conta também uma lenda segundo a qual o arcebispo chegando de visita pastoral a vários lugares do seu arcebispado ali se albergou, em 1109. Sentindo-se frágil e acometido pela doença, recolheu-se na residência anexa à ermida, vindo ali a falecer, depois de lhe ter sido ministrado o sacramento da Extrema-Unção. Sobre a lenda, relatemos o que refere o “Inquérito Paroquial de 1758”, em documento assinado pelo reitor Manoel da Silva Nunes, extraído da obra “Paróquias e freguesias do concelho de Vila Pouca de Aguiar – origens e evolução”, de Albertino Saraiva de Sousa (com adaptação à linguagem atual):

“Há tradição que uma amoreira que estava nas costas da igreja que era nesse tempo o que hoje é a sua ermida e desejando o santo comer fruta e como não a houvesse por ser em cinco de dezembro o dia em que ele morreu mandara à dita amoreira buscar amoras e lhas acharam e coberta de folhas como na primavera e desta se conservam incorruptíveis dois pedaços de tronco, donde se tira relíquias, com cuidado e sem abusos, para livrar de sezões”.

“São Martinho, castanhas e vinho. Tão fresquinho, quem quer um copinho? São Martinho, já abri a pipa, provei o meu vinho, que pinga tão rica”
Excerto de uma canção de João Claro, muito popular nos anos cinquenta /sessenta do século passado

Também a esta lenda se refere Alfredo Gonçalves da Costa, na “Monografia do Concelho de Vila Pouca de Aguiar”:

“Conta-se que no lugar onde hoje está a capela de invocação de S. Geraldo havia uma amoreira que, nesse dia de dezembro, o santo quis comer amoras e as mandou ir buscar à amoreira. Embora não sendo época delas, encontraram a árvore viçosa e cheia de amoras que trouxeram a São Geraldo”.

Um culto que harmoniza o profano com o religioso

A partir da fé no santo milagreiro e do exemplo de São Martinho na prática da caridade e do amor pelos outros, espalhou-se por Portugal, mormente entre Douro e Minho, a popular devoção de ter São Martinho de Tours como patrono das suas igrejas.

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