Cátia Fernandes, coordenadora do programa CLDS 5G (Contratos Locais de Desenvolvimento Social) de Carrazeda de Ansiães, esclareceu à VTM que o objetivo do evento foi “alertar para a problemática da desigualdade de género”, aproveitando a data e o facto de existirem poucas ações deste género no distrito de Bragança. “O município quis assinalar este dia, porque, no nosso distrito não existem, infelizmente, muitas iniciativas sobre o tema”.
Acerca desta problemática, “há ainda muito a fazer”, sublinhou Cátia Fernandes, também apoiada nos mais recentes relatórios sobre violência contra mulheres, que apontam para mais de duas dezenas de vítimas mortais só este ano.
Teresa Fernandes, diretora-técnica de Casa Abrigo para Vítimas de Violência Doméstica de Bragança, explicou que “a raiz de parte do problema de violência doméstica é cultural, logo, a sociedade tem um papel proativo na mudança de paradigma relativamente àquilo que são os papéis tradicionais de género, do homem e da mulher, e a forma como se olha para as relações de intimidade”.
Por isso, e segundo a responsável da Casa Abrigo, na região “temos ainda muitos padrões tradicionais de funcionamento social e familiar, e encontramos raízes muito culturais, religiosas e políticas na forma como a família se organiza. Portanto, o número de ocorrências também é muito grande, mas o pior de tudo é o número de casos que não são denunciados”.
Ainda segundo Teresa Fernandes, a demora da justiça alimenta os casos por denunciar. “A demora do sistema judicial em aplicar as medidas de coação e até as condenações aos agressores, passa uma mensagem de impunidade e de desconfiança em relação ao sistema. Portanto, por um lado, os agressores tornam-se cada vez mais confiantes por impossibilidade de serem alvo de sanções e as vítimas desconfiam do sistema na hora de aplicar justiça”.
A mudança no espectro político, que “faz emergir questões que já estavam quase esquecidas”, leva, na opinião de Teresa Fernandes, a que “os jovens sejam influenciados” na qustão da violência contra as mulheres.
Elisa Brites, gestora do gabinete de Apoio à Vitima de Vila Real, falou também de um retrocesso no trabalho que vinha a ser feito por toda a sociedade. “Apesar de todas as ações de prevenção, toda a informação disseminada e a maior consciencialização das pessoas para esta problemática – talvez isso faça com que se recorra mais ao apoio -, efetivamente estamos a viver tempos complicados e complexos, porque as situações com que lidamos diariamente no apoio às vítimas de violência são preocupantes”.
Também Tânia Graça, que é seguida por milhares de pessoas nas redes sociais, admite que há um “contra movimento” nesta temática. Apesar dos avanços após o 25 de Abril de 1974, assiste-se agora “a algum retrocesso, muito visível no mundo digital, em que temos alguns homens que se auto-intitulam de gurus de masculinidade e também algumas mulheres que querem trazer os papéis tradicionais de género”. Isso leva as mulheres a ficarem “numa posição de submissão que as deixa, obviamente, mais vulneráveis às situações de violência”.
Para a psicóloga, se este é um problema “estrutural e sistémico”, é necessário “rever o sistema de educação, legal e cultural”, realçando que até o papel de cada um de nós deve ser revisto, por exemplo, “na forma como criamos as nossas crianças”.




