Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Suspiros e ais

As raparigas casavam cedo nos anos 40, bastando para isso saberem fazer o caldo, amassar o pão, coser calças, blusas, botar remendos nas roupas. Serem limpas e asseadas.

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Antigamente, depois das ave-marias, chegavam dos campos lavradores de enxada às costas e saudavam-se à passagem uns dos outros. Os sinos na aldeia comandavam os ciclos da vida e quando tocavam impunham solenidade e respeito.

Na pedagogia do sexo, as mães eram escrupulosas com as filhas e davam-lhes as primeiras lições usando uma linguagem cuidada para não apressar a vontade do casamento…as filhas ouviam-nas e aprendiam essas lições mais depressa do que a tabuada, os verbos, o nome dos rios, das serras e linhas férreas.

Os tempos eram outros. Agora já não se joga o pião, esquecemos as correrias com o arco da bicicleta, ou com o pneu gigante da camioneta. Já não corremos no jogo das bandeiras, nem andamos atrás das cabras espantadas com cio, nem subimos às árvores para ficarmos maiores vendo os outros pequeninos…

Já não perseguimos as rolas nos milharais nem o melro nas cortinhas. Esperamos, sim que o sol caia no horizonte, pesados de desânimo do peso da idade. Esperamos que a lua cheia desponte na velha capelinha do monte, lua cheia onde em tempos nasciam sonhos e liberdades. Agora a liberdade nos vê, nos acena e nos faz caretas e desdenha.

Trocámos a amplidão do paraíso onde nos falavam de Jesus Salvador, omnipotente e omnipresente por um éden que não existe…utopias, utopias…

Trocámos a liberdade de falar com os amigos pelo telemóvel que nos corrói a nos leva a um mundo virtual. Consumimo-nos na arte da fotogenia, mostrando a qualquer preço a nudez do corpo sem o conhecermos porque ele é dado a qualquer preço ao outro para que o outro o veja apenas como escultura de beleza da criação humana… e, desesperadamente aguarda-se por um “gosto” no face como se disso dependesse a nossa importância como animais superiores… vã, vã ilusão, submissa à implantação da estupidificação do ego inflamado. 

E, deitadas na praia a imaginação escapa a qualquer mirone de ocasião, quando o corpo de mulher se expõe, se banaliza e se oferece gratuitamente.

Os tempos mudaram perigosamente depressa. E em fuga salvadora corremos ao cemitério para revisitar os mortos em lembranças do passado. Ali estão os nossos ídolos, os nossos santos…e cativas estão inocentes meninas de cabelos loiros e rostos perfumados róseos…Ali, a imaginação é pausada, refletida, dolente…

Ali estão homens e mulheres que desejaríamos ver: A Panchúlica, a Tomásia, os Furões, os Vilarrolos, os Xagarros e outros que partiram carregando no corpo o flagelo da dor, o suplício da miséria.

Ali está uma menina de sorriso ao vento, lábios inundados de gratidão por ter morrido sem mácula do pecado, desconhecendo a crueldade dos homens…morreu como santa, partiu com a vida em botão…botão fino, delicado, saído da mais bela flor…

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