Domingo, 24 de Outubro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Uma justiça sem justiça

Por estes dias, escutámos numa missa ferial a sempre provocadora e intranquilizadora parábola do rico e do pobre Lázaro. Do rico nem sabemos o nome. Talvez nos queira dizer que quem não ama cairá no esquecimento. A parábola conta a tremenda falta de compaixão e de solidariedade de um nababo para com um pobre que […]

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Por estes dias, escutámos numa missa ferial a sempre provocadora e intranquilizadora parábola do rico e do pobre Lázaro. Do rico nem sabemos o nome. Talvez nos queira dizer que quem não ama cairá no esquecimento. A parábola conta a tremenda falta de compaixão e de solidariedade de um nababo para com um pobre que todos os dias estava junto ao seu portão, de quem o rico nunca quis saber. No fim da vida, o rico perdeu-se num lugar de tormento, com chamas que o devoravam. Em pleno tempo quaresmal, a parábola lembra-nos o dever que temos de cuidar uns dos outros e quer apelar para o dever da justiça, da solidariedade e da partilha entre todos e que se abatam as desigualdades, que teimam em persistir entre homens e mulheres com a mesma dignidade. 

Infelizmente, as desigualdades entre ricos e pobres não se abatem e em muitos âmbitos da vida social até parece que se continuam, lamentavelmente, a afundar. Olhemos para a justiça que temos. Pode parecer populista escrever isto, mas a vida comprova-o todos os dias: há uma justiça para pobres e outra para ricos, que podem contratar os melhores advogados e usam e abusam dos vários recursos, que a lei lhes faculta, empatando os processos durante anos e anos, até ao ponto de se chegarem às vergonhosas prescrições. Como é possível vários banqueiros e seus colaboradores terem feito as traficâncias e os estragos que fizeram e ainda hoje se passeiam pelas ruas como se nada se tenha passado. Pobre do pobre ou do inocente inábil que caia nas malhas da justiça! Tem um severo purgatório pela frente e se tem o azar de enfrentar um poderoso escritório de advogados, luxo dos endinheirados, é calvário e insucesso garantido. A justiça não pode continuar assim. Há que garantir que a justiça é mesmo acessível para todos os cidadãos, imparcial, inviolável, despreconceituosa, impenetrável por interesses, competente e séria, defensora das liberdades e direitos de todos, por igual, e que não se permitam escapatórias e artimanhas para os opulentos passarem a vida a pensar que podem viver como querem ou que a lei de todos não é para eles. 

O que tem vindo a público ultimamente só nos pode deixar ainda mais preocupados: parte do sistema judicial está viciado, há sorteios falsificados, juízes escolhidos a dedo para determinados processos, venda de sentenças. Alguém resumia muito bem a sensação geral: «Ninguém acredita na justiça». Urge reformar a justiça. Não existem democracias sólidas e países credíveis sem ela.

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