Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2022
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Urgente celebrar o Nascimento do Menino Deus

Sim, antigamente havia mais espírito de Natal.

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Nos anos 60, o “Zé Pobre”, chegou a Mateus duas noites antes da ceia de Natal, faminto. O calçado estava roto e as roupas apresentavam-se aos retalhos. O corpo estava regelado, o frio era polar, mas o Zé Pobre nessa noite carregava um sorriso cintilante, rasgado de felicidade. Ele sentia o espírito de Natal.

No Natal, nas aldeias, todos sabiam quem eram os pobres. Andavam de sacola aos ombros, vagueavam e sorriam como seres inocentes e submissos a Cristo, Filho de Maria. Vinham de longe, desciam montes e montanhas, desconhecendo-se a origem dessas criaturas de Deus.

À chegada à aldeia pareciam santos, almas bondosas que a todos cumprimentavam derreando as cabeças, fazendo o sinal da cruz. Batiam às portas e rezavam, rezavam por todos aqueles que na sua generosidade lhes ofereciam alguma coisa. E no Natal a generosidade era imensa.

Nas aldeias serranas quase todos viviam numa dura economia de subsistência. Alguns benfeitores preferiam que os pobres cantassem loas antigas, velhas canções porque diziam que cantar era rezar duas vezes.

Na minha aldeia havia uma família abastada e caridosa e na época de Natal dispunha de um palheiro onde os pobres de muito longe podiam pernoitar, uma ou duas noites. Alguns pobres, mais novos, por vezes ofereciam-se para ajudar em algum trabalho, queriam retribuir. Queriam que os vissem ainda com a esperança de um dia deixarem o estigma da pobreza e sonhavam ainda, porque o sonho era algo que ninguém lhes podia roubar.

Nas aldeias havia pobres que emigraram para atenuar a miséria daquelas terras, daqueles lugares, nichos de aventuras e desventuras.

A pobreza e a desigualdade parecem confirmar o Evangelho: “ Pobres sempre tereis entre vós”, como se isso fosse uma fatalidade. Na verdade, somos todos responsáveis pelas misérias do mundo, pelos marginalizados, por uma parcela de gente que não tem pátria, e que anda à deriva sem norte, sem esperança, sem nada.

É tempo de os pobres terem uma palavra a dizer, porque na estrada do tempo as suas exigências não tiveram eco, apenas foram ouvidas por outros pobres, outros seres errantes a navegarem em águas turvas e profundas. É tempo de arregaçar as mangas para restituir a esperança a quem há tanto tempo a perdeu. Nesta quadra tão especial, nas relações amistosas entre as pessoas, é o momento de nos reencontrarmos e olharmo-nos como pessoas civilizadas. É tempo de quebrar o círculo da indiferença e descobrir a beleza no diálogo e na tolerância.

É tempo do frio e dos aconchegos nos lares. É tempo de olharmos a luz mensageira que nos aviva a memória na chama que fortalece os corações.

Celebrar o Nascimento do Menino Deus, nunca foi tão urgente e desejado.

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