Domingo, 2 de Outubro de 2022
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

2020: Um ano atípico para a economia transmontana

Antes de ver o Ranking das maiores empresas de 2020, confessava uma certa curiosidade em perceber como as maiores da região tinham vivido o primeiro momento pandémico e se tinham tido um comportamento diferente das PME, que ficaram particularmente expostas.

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Depois de o ver, anoto algumas surpresas. No topo da tabela de 2020, verificamos o efeito mais claro da pandemia de Covid-19. Assim, existiu uma tendência generalizada de redução no Volume de Negócios com repercussão, também, na redução dos Resultados Líquidos. No entanto, observou-se que algumas unidades do topo apresentaram melhoria nestes indicadores, o que salienta a importância da competência e da qualidade diferenciada das equipas de gestão neste período.

No entanto, convém também olhar para o fundo da tabela, com um comportamento mais próximo do tipificado para a generalidade das PME (o grosso do tecido empresarial da região e do país). Aí, observamos melhorias quer no Volume de Negócios quer no Resultado Líquido reportados, bem como na capacidade de contratação (havendo, em média, a contratação de mais um a dois colaboradores no período, sobretudo no setor do Comércio a Retalho) – de acordo com os dados disponibilizados ao jornal A Voz de Trás-os-Montes. No entanto, convém não esquecer que foi nas PME, não detalhadas no ranking, que mais se sentiu a crise económica, em setores como o da Restauração ou dos Transportes, o que conduziu a um desemprego acentuado na região com os principais centros urbanos a terem taxas de desemprego superiores à média nacional, a perderem a classe média e a sofrerem um agravamento da desigualdade socioeconómica.

Quando pretendemos salientar as reduções mais graves no Volume de Negócios das Maiores da Região verificamos que os Setores do Turismo, dos Transportes e dos componentes do ramo Automóvel lideram, sem surpresa, as quedas, assim como lideram a redução do número de trabalhadores. Neste último indicador são acompanhados, neste movimento, pelo downsizing em empresas ligadas à vitivinicultura e às infraestruturas rodoviárias. Ao invés, os aumentos mais significativos no Volume de Negócios deram-se em empresas do ramo da Construção Civil e no Imobiliário, o que se traduziu num fluxo de contratações mais expressivas no geral destes setores.

A estabilização genérica no número de contratados em 2020 já foi escrutinada a nível nacional e deveu-se a uma conjugação da existência dos apoios públicos aos agentes económicos no contexto pandémico, mas também devemos reconhecer uma certa assunção de responsabilidade social que a classe empresarial das maiores empresas assumiu/conseguiu assumir, mais ou menos implicitamente, no período. O apoio eficaz dos gabinetes de contabilidade e consultoria completou o quadro. De fora deste movimento protegido, ficaram as PME e muitas famílias de pequenos e médios empresários, que refletiram com especial gravidade a ausência de circulação monetária significativa nas ruas do pequeno comércio nos períodos de confinamento.

Finalmente, o setor do Imobiliário teve uma palavra maior, refletida decerto nos valores que serão reportados para 2021, no ranking do próximo ano. A especulação imobiliária, e a especulação pandémica, que trouxe uma revalorização das moradias e do preço do metro quadrado, mesmo em áreas rurais, explicam parte do observado. Não será, pois, de estranhar que tal dinâmica tenha trazido dias positivos para este setor já em 2020, inclusive animados pela antecipação do ano eleitoralista que se seguiu, tradicionalmente generoso em obras públicas.

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