Terça-feira, 21 de Abril de 2026
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A tradição da fogueira de Natal na aldeia de Noval

O Madeiro de Natal é uma antiga tradição portuguesa, muito comum no interior. Em Trás-os-Montes há muitas aldeias que continuam a manter viva esta tradição, que é acesa na noite de 24 de dezembro, em praças ou adros de igrejas, simbolizando a união comunitária e a renovação 

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Noval, na União de Freguesias de Soutelo e Seara Velha, é uma das aldeias que ainda carrega a tradição de iluminar o centro da aldeia com a tradicional fogueira de Natal.

É uma prática muito antiga que ainda não se perdeu, em que o objetivo é o convívio e a união entre todos, num ritual que começa no dia anterior, com a procura da lenha para amontar no centro da aldeia, e se prolonga até ao final do dia de Natal. Pelo meio, não faltam as bebidas e os petiscos durante a madrugada ao calor do lume.

“Houve até ocasiões em que a fogueira durava até ao Ano Novo”
AMÂNDIO RODRIGUES 

Desde o uso do carro de bois levado à mão até à chegada dos tratores e outras maquinarias, a fogueira de Natal é feita pelos habitantes da aldeia, numa tradição que tem passado de geração em geração.

Amândio Rodrigues, de 56 anos, lembra que se juntavam mais de 20 rapazes. “Não tínhamos os bois, levávamos nós a carroça” e, ao colocar os troncos, descarregavam a madeira para o local onde o fogo iria ser aceso. Houve até ocasiões em que “a fogueira durava até ao Ano Novo”, recorda, acrescentando que antes esta era uma tradição partilhada com a população de Soutelo, mas, com o passar do tempo, a união perdeu a chama.

Noutros tempos, Amândio revela que existiam alguns atritos entre as pessoas de Noval e as de Soutelo, devido a “interesses políticos e outras discordâncias”, mas isso não impedia os encontros no campo de futebol aos domingos. “Juntavam-se todos aos domingos de manhã e jogavam futebol, mas depois quando se ouvisse falar de política começavam-se a dividir”.

ESPÍRITO DE UNIÃO

“A aldeia torna-se num ponto de encontro dos residentes locais, mas também de outras localidades vizinhas”
RAFAEL RIBEIRO 

Noval “continuou a manter a tradição”. Amândio gostava de ajudar a fazer a fogueira, mas devido ao trabalho no ramo da hotelaria, os horários não lhe permitem estar presente. Mesmo assim, a tradição “está mais forte agora”, devido ao espírito de união dos habitantes da aldeia.

“Já não é Natal se não houver fogo”, confessa Rafael Ribeiro, de 32 anos, morador em Noval. Começou a ajudar ainda era adolescente, porque na “noite de Natal tem de haver fogo”.

Bem preparados, com cerca de quatro tratores e respetivos reboques, são recolhidas raízes, cepos, troncos e lenha fina, tudo para manter a fogueira grande durante muito tempo.

O saber-fazer passa dos mais velhos para os mais novos. “Acompanhamos a geração mais experiente, em que nos ensina a cortar, transportar e depois construir o fogo”, explica Filipe Moura, um jovem que faz agora parte do grupo. “O fogo tem de se fazer para ser forte e duradouro”, mas para isso é preciso montá-lo bem, sobretudo com os troncos e com as raízes das árvores para ele se manter a arder. Depois é ir colocando lenha para que não se apague”, sublinha, lamentando, no entanto, que outros jovens não se interessem por estas tradições. “Fico triste que as gerações mais novas não queiram saber destas antigas tradições”.

“Fico triste que as gerações mais novas não queiram saber destas antigas tradições”
FILIPE MOURA 

“Mas nós gostamos disto também pelo convívio e para estarmos todos juntos. Saímos todos de manhã, e é um dia que passamos juntos a rir, a conviver e a colocar a conversa em dia, mas também a trabalhar. À noite é igual, pois praticamente passamos a consoada na fogueira. É uma tradição que gostamos de manter e esperamos que assim continue no futuro”, acrescentou Filipe Moura.

Ainda na adolescência começou a acompanhar os mais velhos. “Comecei devia ter uns 17 anos”. Hoje, com 22 anos, sabe manusear todas as ferramentas de trabalho, em que aprendeu ao ver o pai e o irmão trabalhar.

No final de um dia de intenso trabalho, com o lume aceso, chega a verdadeira hora da consoada. Com cerveja de pressão, pão e fumeiro da região, febras e entremeada, a fogueira de Natal na aldeia de Noval torna-se num ponto de encontro dos residentes locais, mas também de outras localidades vizinhas.

Depois da ceia de Natal em casa, Rafael Ribeiro refere que “o pessoal gosta de vir ter connosco, mesmo que sejam só 5 ou 10 minutos, passam por cá”, num momento de partilha e convívio entre todos.

Esta é uma tradição ainda muito enraizada nas aldeias transmontanas, que corre o risco de desaparecer, por falta de jovens, no entanto, em Noval todos prometem continuar a abraçar este costume, que marca a diferença nos tempos modernos.


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