Domingo, 28 de Novembro de 2021
Barroso da Fonte
Escritor e Jornalista. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Alexandre Parafita e as bibliotecas vivas

Na edição de 8 do corrente, do Jornal de Notícias, na rubrica «Praça da Liberdade», deparo com uma nota reflexiva, a que o seu autor chama «Bibliotecas que desmoronam». Este docente universitário que se chama Alexandre Parafita, se vivesse em Lisboa, já teria sido sondado para Ministro da Cultura. Mesmo que não lendo mais do […]

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Na edição de 8 do corrente, do Jornal de Notícias, na rubrica «Praça da Liberdade», deparo com uma nota reflexiva, a que o seu autor chama «Bibliotecas que desmoronam». Este docente universitário que se chama Alexandre Parafita, se vivesse em Lisboa, já teria sido sondado para Ministro da Cultura. Mesmo que não lendo mais do que esta carta pública, dá para entender que este Transmontano tem um percurso de vida exemplar. Um cidadão que me toca por dentro e por fora, pedagogo, pensador, filósofo, etnólogo, etnógrafo, um homem do povo que não cresceu engravatado, nem subiu, como fazem os políticos, procurando sempre as cadeiras da frente. Este Homem subiu sempre a pulso. E bem.

Li, como sempre faço, esta nota breve que dava para um tratado de sociologia, uma discussão científica, na Academia das Ciências, um programa de acesso ao comissariado europeu para os direitos humanos.

Face à pandemia que atravessamos, ao contrário de critérios de prioridade médica que já se cruzaram nas redes sociais, estas reflexões do académico e investigador, Alexandre Parafita, valem por ampolas assertivas para alívio das mentalidades sociais. Vejamos:

São as grandes vítimas deste maldito flagelo. Buscaram refúgio nos lares da 3ª idade, almejando um fim de vida calmo, um pôr do sol luminoso, menos solitário, rodeado de carinho que todo o ser humano merece, especialmente nesta fase da sua vida. Muitos deles, dezenas e centenas, tesouros vivos da memória coletiva, foram sendo meus parceiros no trabalho que abraço há décadas, enquanto etnógrafo. Guardiões do passado, narradores da memória, permitiram-me resgatar testemunhos valiosos de um património imaterial em risco…

Gente guerreira, que moveu pedras e muralhas, construindo socalcos no Douro, gente mártir, torturada, que amargou anos, meses, dias, mas ainda assim capaz de louvar a Deus numa soberana gratidão… vejo-os partir, às centenas, tão ingloriamente nesta maldição que se abateu sobre a Humanidade, como se um deus-algoz soltasse as amarras para com elas açoitar a terra…

São bibliotecas vivas que deveriam ser eternas, mas que se fecham e desmoronam… sofrem as famílias e os amigos. E a sociedade empobrece…

E termina esta quase oração matinal que ao leitor apetece repetir, pela certeza de que esta reza metafórica, consola os velhos e atenua a dor dos novos, uns e outros, recetivos «às páginas de livros, onde possamos continuar a aprender lições de vida».

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